Lula encontra Obama e anuncia ação conjunta para cúpula do G20

Brasil e EUA vão constituir grupo com objetivo de apresentar plano na reunião que discutirá saídas para a crise

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Os presidentes Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva vão constituir um grupo formado por Estados Unidos e Brasil para apresentar um plano de ação na reunião do G20, que vai discutir saídas para a crise mundial no dia 2 de abril, em Londres. "Foi muito importante a proposta de Obama para constituirmos um grupo Brasil-EUA para preparar um trabalho conjunto na reunião do G20", disse Lula ontem, em entrevista coletiva, após o encontro que teve com o presidente americano na Casa Branca. Segundo Lula, o grupo vai unir Brasil e Estados Unidos para debater que tipo de regulamentação financeira será necessária, como serão reconstituídos os fluxos de crédito internacional e como aportar mais recursos em instituições multilaterais para financiar os países em desenvolvimento.Apesar de declarar a aliança com os EUA para o G20, Lula mostrou ter algumas divergências em relação à abordagem americana e voltou a dizer que os EUA são os maiores responsáveis pela crise financeira global. "A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade", declarou.Lula, Obama e suas comitivas se reuniram por quase duas horas para discutir a crise econômica mundial, o problema do protecionismo, biocombustíveis e as relações dos Estados Unidos na América Latina. A comitiva de Lula chegou às 10h56 à Casa Branca, para o encontro que começou pontualmente às 11h. Ele foi o primeiro presidente latino-americano a se encontrar com o novo presidente americano. No lado brasileiro, participaram da reunião a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), o embaixador Antonio Patriota, o assessor para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia e a chefe de gabinete de Amorim, Maria Laura. No lado americano, James Steinberg, subsecretário de Estado; general James Jones, titular no Conselho de Segurança Nacional; Thomas Donilon, vice no Conselho; Dan Restrepo, assessor para assuntos de Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional; e Larry Summers, presidente do Conselho de Assessores Econômicos.Lula comemorou a união com os EUA para encontrar soluções anticrise, mas manifestou ter posições diferentes das apresentadas até agora pelo governo americano. Ele defendeu, por exemplo, a nacionalização dos bancos como parte da solução da crise. "Aqui nos Estados Unidos falar a palavra estatização, nacionalização, é uma coisa difícil, mas concretamente precisamos fazer o dinheiro voltar ao mercado", disse. "Se o povo não acredita no atual sistema financeiro, quem pode dar solução se não o Estado?" Ele também fez uma crítica aos resgates dos bancos. "A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos."Na frente de Obama, Lula também se disse preocupado com o fato de os Estados Unidos estarem aumentando muito seu endividamento e reduzindo o crédito disponível para os países emergentes. "Isso terá de ser discutido no G20."O presidente americano quer ter o Brasil como aliado nas discussões anticrise do G20 em Londres. Os EUA defendem um pacote de estímulo coordenado entre os países do grupo. Já a Europa quer dar prioridade para uma maior regulamentação transacional do sistema financeiro, medida que agrada também ao Brasil. "Não podemos abrir mão de regulamentação financeira e vamos discutir a dimensão dessa regulamentação no G20", disse Lula. Obama e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, defendem um aumento substancial dos recursos do FMI para que o fundo possa auxiliar economias em crise, como as do Leste Europeu, e viabilizar um estímulo fiscal global. Os EUA aumentariam sua contribuição para o FMI, mas esperam que outros países, entre eles Brasil, China e Índia, façam o mesmo.Os dois presidentes se comprometeram a combater o protecionismo, mas jogaram um balde de água fria no avanço do comércio mundial. "Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)", disse Obama, comentando o protecionismo. "Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica." Obama afirmou que a secretária de Estado, Hillary Clinton, e Celso Amorim vão se encontrar para discutir formas de combater o protecionismo.FRASESLuiz Inácio Lula da SilvaPresidente do Brasil"A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade""A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos"Barack ObamaPresidente dos EUA"Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)""Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica"THE NEW YORK TIMES A versão online do jornal reproduziu, com texto de agências de notícias, Lula dizendo que Obama está "convencido" de que o encontro do G20 no mês que vem "pode resolver a crise econômica". O jornal contou a brincadeira de Lula com Obama quando disse que não gostaria de estar na posição do americano. O texto termina falando do desejo manifestado por Obama de conhecer o Rio de Janeiro.CLARÍN XO jornal argentino trouxe a seguinte manchete em sua versão online: "Lula se encontra com Obama e defende que não se perca tempo apontando culpados". O texto destacou a afirmação do brasileiro sobre a necessidade de os países buscarem uma solução para a crise no encontro do G-20. A reportagem tratou ainda da declaração de Lula sobre a "responsabilidade histórica" de Obama.EL PAISO jornal espanhol destacou declaração de Obama de que os EUA "têm muito a aprender com o Brasil" no campo de energias renováveis. O texto fala do convite de Lula a Obama para que conheça um carro flex quando vier ao Brasil. "Viagem que o presidente americano disse que pretende fazer em breve", destaca. A reunião, completou o jornal, "foi descontraída e com brincadeiras dos dois lados".BBCO serviço online da inglesa BBC trouxe Lula pedindo a atenção de Obama para os "riscos" do protecionismo. A reportagem informa que o brasileiro defendeu ainda uma ação contra crise no encontro do G-20. O texto destaca que Lula foi um dos primeiros líderes internacionais a visitar Obama na Casa Branca, concluindo: "Um indicativo do crescimento da importância do Brasil na cena internacional."

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