Lula empossa secretária que promoverá igualdade racial

Ao som de berinbaus e atabaques, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva instalou hoje a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, coincidindo com o dia internacional de combate à discriminação racial. No comando, uma mulher e negra, Matilde Ribeiro a quem Lula disse, na cerimônia de posse: "Prepara-te, a luta é dura, mas será compensadora". O nome da doutoranda em serviço social foi anunciado na cerimônia pelo ex-senador Abdias Nascimento, de 89 anos, uma referência do movimento negro no Brasil. "O governo Lula vai efetivar a segunda abolição", previu o líder, afirmando que o fim da escravatura decretada no Império não passou de um ato formal sem efetividade no cotidiano. Abdias comentou que esta foi a primeira vez que seu povo sofrido, que "conquistou a cidadania palmo a palmo com muito suor e sacrifício de milhões de afrodescendentes", subia as escadas do Poder. Ele afirmou que os negros foram abandonados após a abolição, criando-se no País novos escravos, "os da falta de trabalho". As mulheres negras, acrescentou, antes eram objeto de trabalho e depois passaram a ser objeto sexual. RacismoO presidente observou que ainda há quem acredite não existir preconceito racial no Brasil ou, no máximo, uma discriminação que prejudique apenas algumas minorias. "Esses males causam muito sofrimento entre nós", reparou. Mais de 64% dos pobres e de 70% dos indigentes são negros. O perfil se repete entre os desempregados.O próprio Lula já sentiu os efeitos da discriminação. Depois de uns dez comícios, em 1992, Lula de camiseta surrada e a então deputada Benedita da Silva, candidata ao governo do Rio, foram à casa de uma "personalidade". O porteiro, um negro, ordenou que subissem pelo elevador de serviço. Lula ficou indignado, ligou para o amigo e só então teve acesso ao elevador social, que era do mesmo tamanho e da mesma marca do de serviço.Agora, instalado no Planalto, Lula reconhece que o preconceito não é culpa de ninguém individualmente, mas fruto de uma estrutura de dominação cultural em que os negros sempre foram tratados como uma raça inferior, bons para dançar, jogar futebol, disputar Olimpíadas, mas nunca para serem o chefe, médico, dentista ou advogado. "Se nós não começarmos a mudar na cartilha em que a criança começa a aprender o bê-a-bá, nós nunca mudaremos isso", concluiu. A secretaria, que nasce com status de ministério e apoio dos movimentos sociais, segundo Lula, é uma "sementinha" para resolver o preconceito racial no País. Matilde tem a missão de trabalhar em articulação com os outros ministérios para não repetir iniciativas do governo passado, que, na avaliação Lula, "eram ações isoladas ou de caráter meramente propagandístico". Para Matilde, o combate ao racismo é responsabilidade do governo e de toda a sociedade. Ela presenteou Lula com uma camiseta em que aparecia o mapa do Brasil e os dizeres "que todos levem no peito este país de todas as raças". "Que este seja um belo dia na construção de um País decente e igualitário", exaltou Matilde, com voz embargada.O salão no mezanino do Palácio do Planalto virou uma festa, com direito até a apresentações do grupo de dança Ase Dudu e da poetisa negra Elisa Lucinda, que declamou diversos poemas recheados de histórias de discriminação, da luta dos negros e da esperança de dias melhores. "O Deus soprador de carmas deu de me fazer diferente para que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.