Lula emociona Fórum, mas nega candidatura

Ovacionado por um auditório com mais de 3 mil pessoas no Fórum Social Mundial e agarrado, na saída, por militantes mais afoitos, que, aos berros, pediam que se candidate à Presidência, o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, negou ter feito no encontro um discurso de lançamento da sua candidatura. "Não sou candidato, não tenho por que decidir agora", afirmou Lula, negando mais uma vez já ter decidido concorrer. "Esse foi o discurso de um cidadão que acha que esse fórum é uma das coisas mais importantes que já aconteceram neste continente", declarou, andando pela Pontifícia Universidade Católica, cercado de seguranças, agarrado por eleitores e fãs que o cumprimentavam, lhe pediam autógrafos e tiravam fotos.Para quem ouviu o pronunciamento do petista no auditório 1 do prédio 41 da universidade, na série de "Testemunhos", ao lado de outro candidato derrotado a presidente, como o mexicano Cuhautemoc Cárdenas, na noite de sábado, porém, a impressão foi outra. Diante de uma platéia esmagadoramente petista, Lula foi várias vezes interrompido por aplausos e gritos, num discurso em que narrou a sua trajetória pessoal, algumas vezes emocionado, outras fazendo piadas como a que abriu o pronunciamento.Nesse ponto ele recordou que, na Antigüidade, para provar que seu depoimento era verdadeiro, o homem deveria prestá-lo segurando os próprios testículos. "Certamente que hoje não caberia, e nem os homens são tão bobos de fazer uma cena patética dessas", afirmou, provocando gargalhadas na platéia, onde se viam duas bandeiras do PT e uma do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Depois de dedicar seu testemunho a líderes latino-americanos que, segundo ele, tentaram, no passado, "fazer o mesmo" que os participantes do Fórum Social Mundial tentam agora (entre os citados, Che Guevara, Salvador Allende e Emiliano Zapata), Lula começou a falar de si.Recordou ter nascido em Pernambuco, em 1945, e, por "milagre", sobrevivido. Lembrou que sua mãe morreu analfabeta e teve 12 filhos, dos quais oito sobreviveram. "Passei grande parte da minha vida sonhando ser alguém. Aliás, eu tinha um grande sonho de ser economista", disse, provocando mais gargalhadas. "Eu tinha uma vontade de ser economista. Eu queria ser economista da oposição. Quando a gente assume o governo, começam a aparecer as dificuldades." Contou também que o máximo de educação que conseguiu foi se formar torneiro mecânico, do que disse se orgulhar. "Neste mundo globalizado, nesta maluca doutrina do neoliberalismo, as crianças hoje têm até universidade, mas não têm a oportunidade de emprego que eu tive com o meu diploma de torneiro mecânico", afirmou.Lula disse que os países da América Latina, do ponto de vista econômico, são colônias, "principalmente de um país que detém a hegemonia militar, tecnológica, econômica e cultural" - referência aos EUA - e disse que, muitas vezes, lhe perguntam porque fala sempre as mesmas coisas. "Se eu falasse em cada discurso uma coisa diferente, até já teria sido eleito presidente da República", afirmou. Para ele, o duro é resistir, quando o mais fácil é se entregar. "Estamos cansados de ver governantes ganharem eleições falando dos pobres e para os pobres. E quando vêm as eleições, os pobres passam a ser apenas objetos, e os eleitos governam para os ricos com a maior desfaçatez do mundo", atacou.O presidente de honra do PT criticou os que são contra a política e não querem ser políticos, citando exemplos como os do sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, do subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, e a si próprio. "O que temos que ter vergonha é de fazer a política errada", disse. Lula voltou a provocar risos entre os assistentes, ao dizer que, no passado, foi "ignorante". "Olívio, eu era ignorante", afirmou, dirigindo-se ao governador gaúcho, Olívio Dutra (PT). "Mesmo depois de te conhecer, eu era ignorante. Conheço o Olívio desde 1975. Quando fiz a primeira greve, em 1978, fazia questão de dizer: não sou político, não gosto de política e não gosto de quem gosta de política. E aí eu fui amadurecendo e percebi o quanto eu era babaca, o quanto eu era desinformado, o quanto eu era ingênuo."O petista também lembrou que considerava "perigosos" os "terroristas" como o deputado José Genoíno (PT-SP), que foi guerrilheiro no Araguaia e, na platéia, riu muito da afirmação. "Passei grande parte da minha vida lendo a Esportiva, que é um jornal de esportes de São Paulo", contou. "A minha maior preocupação não era a economia, não era o encontro de Davos, não era o Banco Mundial. Era saber se o Corinthians estava bem ou não."Lula atribuiu sua politização "aos trabalhadores brasileiros" e lembrou que o processo possibilitou a criação de um forte movimento sindical e do PT. Ele recordou também o Foro de São Paulo, que reúne todos os partidos de esquerda da América Latina. "Não pensem que é fácil", disse. "Na primeira reunião que fizemos (em 1990), a única coisa que unia os argentinos era o Maradona. A República Dominicana tem um pouquinho de gente, mas tinha 23 organizações de esquerda."O petista afirmou ter sido convidado duas vezes a passar temporadas em universidades no exterior (Harvard, nos EUA, e Oxford, no Reino Unido) e contou ter ficado, no primeiro caso, até tentado pela oferta, mas não aceitou. "Não conseguiria me entender fora do Brasil três meses", disse. Explicou, porém, que há um aspecto político na recusa. "Afinal de contas, quem vai lá para fora, normalmente, se transforma na elite dominante", disse. E perguntou: "Para governar o País, para cada um de vocês governar o País, precisa conhecer Stanford ou o povo que quer governar?" Foi ovacionado pelos assistentes, que saudaram o fim do pronunciamento com gritos de "Brasil, urgente, Lula presidente."O senador Eduardo Suplicy (PT-SP), pré-candidato a presidente, elogiou Lula que, segundo ele, continua a ter um "respaldo extraordinário". "Quero ajudar o Lula a, um dia, presidir o Brasil. Vou muito ajudá-lo. Isso poderá ser em 2002 ou mais tarde." O senador voltou a defender a realização de uma prévia entre todos os partidos de esquerda para escolher um candidato único das esquerdas à Presidência.Já Cárdenas não falou de si, mas do México. Afirmou que o neoliberalismo não fracassou, já que se propôs a concentrar riquezas e mundializar a economia - coisas que ocorreram. Lamentou, contudo, os efeitos das políticas econômicas neoliberais. "No México, 67% das pessoas se encontram em situação de pobreza", afirmou. Segundo ele, 50% dos mexicanos estão desempregados ou subempregados. Cárdenas denunciou que o tratado que criou o Nafta, acordo comercial que une México, EUA e Canadá, é "inequitativo" e propôs a formação de um bloco econômico latino-americano, um acordo de desenvolvimento e comércio, em que os países se respeitem. "Esse bloco não teria que se opor a outros blocos e nações, teria colaboração intensa com os Estados Unidos, o Canadá e a União Européia", afirmou.

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