Lula eleva tom das críticas e prepara terreno para sucessor

Sem possibilidade legal de se candidatar, presidente está mais à vontade e não tem poupado ataques à oposição

MAIR PENA NETO, REUTERS

17 de março de 2008 | 13h18

Com a economia crescendo acima de 5%, o desemprego no menor nível dos últimos cinco anos, a produção industrial subindo na maioria das regiões e o consumo das famílias aquecendo o mercado interno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva navega em céu de brigadeiro, eleva o tom do discurso e chega a lembrar o Lula de 1989 na crítica aos adversários. Sem a possibilidade legal de se candidatar novamente, Lula parece mais à vontade nas cerimônias públicas e não tem poupado a oposição de ataques, buscando ressaltar as diferenças de seu governo para o antecessor e preparando o terreno para o candidato que vier a apoiar em 2010.  Veja também:  ESPECIAL: O estilo sem papas na língua do presidente Lula   Governo começa a pagar Bolsa-Família a número maior de jovens  O cientista político do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Fabiano Santos, inverte a questão. A virulência estaria partindo da oposição e o presidente a rebate. "Lula reage a um comportamento mais agressivo da oposição", avalia Santos. "Um comportamento paralisante, voltado apenas a inviabilizar o governo e não deixar agenda para o país andar", completa. Depois de iniciar o seu governo com medidas impopulares, como o ajuste fiscal que elevou o superávit primário que tanto condenava, Lula desfruta agora da casa arrumada e defende com unhas e dentes os programas sociais do governo, frequentemente condenados pela oposição como paternalistas, caros e eleitoreiros. "No Brasil tem uma coisa que eu queria que vocês compreendessem bem: tudo que a gente faz para pobre é gasto; tudo o que a gente faz para os setores mais ricos é investimento", disse Lula em recente mesa de negócios promovida pela revista britânica The Economist.  ImpaciênciaO presidente tem se revelado cada dia mais impaciente com as condenações aos programas sociais e vai à forra quando fala diretamente ao povo, com quem tem tido contato permanente em suas frequentes viagens pelo país. Lula tem enfatizado sempre que a opção de seu governo é pelos pobres e não teme tangenciar a luta de classes quando está à vontade nos palanques. "Não é possível que as pessoas possam brincar em campo de golfe e muitas tenham que brincar em esgoto a céu aberto", disse Lula na Rocinha, uma das maiores favelas da América Latina, referindo-se ao vizinho Gávea Golfe Clube, um dos clubes mais exclusivos da cidade. "Isso pode ser entendido por ser ano de eleição", afirma o cientista político da PUC, Ricardo Ismael. "Esse é o primeiro capítulo de 2010. O presidente está procurando capitalizar o bom momento da economia, os programas sociais, as obras do PAC." Segundo Ismael, a estratégia de Lula é percorrer o Brasil e ocupar espaço antes que o início do período eleitoral o limite. "Ao falar que Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil) é a mãe do PAC e elogiar Patrus (Ananias, ministro do Desenvolvimento Social) na condução do Bolsa Família, ele está lançando balões de ensaio para 2010." Lula tem responsabilizado diretamente a oposição por tentar bloquear na Justiça os programas sociais e não teme criar atritos com outros poderes ao se queixar da ingerência do Judiciário no Executivo. Ao lançar no Ceará o programa Territórios da Cidadania, voltado às regiões mais pobres do país, disse que seria bom se o Judiciário "metesse o nariz apenas nas coisas dele." "O STF tem colocado uma certa agenda que não interessa ao governo, como a fidelidade partidária, e agora ao criticar programas que podem ter impacto eleitoral", diz Ismael sobre as críticas ao Judiciário. No discurso de lançamento do Territórios da Cidadania, Lula destacou o papel conscientizador do programa, dizendo que ele possibilitará "àqueles que não tinham vez começar a ter, começarem a falar, começarem a gritar e a reivindicar, porque se a gente não fica esperto os mesmos de sempre continuam a ter acesso ao dinheiro do povo." "Como a economia vai bem e Lula não tem flanco para ser acusado de irresponsabilidade fiscal ou coisa do gênero, ele fica mais confortável", afirma Fabiano Santos, acrescentando que o presidente precisa completar seus projetos para fazer o sucessor. "Ele tem um projeto político e precisa fazer cada vez mais para colocar no colo de seu candidato realizações incontestáveis", diz o cientista político do Iuperj.

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