Lula e governador vêm travando disputa cordial

Adversários no plano político, petista e tucano dominam cenário econômico ao anunciar medidas contra crise

CHRISTIANE SAMARCO, RUI NOGUEIRA e DANIEL BRAMATTI, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Adversários na política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), agora disputam espaço no cenário econômico, graças à crise financeira internacional e à ameaça de seus reflexos no Brasil.Cada passo tomado por Lula na tentativa de reduzir o impacto da crise no país foi seguido pelo anúncio de medidas pelo governador paulista. Serra é, ele próprio, pré-candidato à eleição presidencial de 2010. O presidente, que aposta suas fichas na ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sabe que as chances eleitorais de sua apadrinhada estão diretamente relacionadas ao desempenho da economia.O principal exemplo da competição - sempre em tom cordial - é o socorro às montadoras de automóveis, espinha dorsal do setor industrial. Diante do cenário de enxugamento de crédito, Lula abriu as torneiras do Banco do Brasil e destinou R$ 4 bilhões para financiar a compra de carros.Ato contínuo, Serra anunciou pacote de crédito da Nossa Caixa com a mesma finalidade e o mesmo valor. Isso em meio à negociação da venda do banco estadual para o Banco do Brasil - no final das contas, a instituição federal é que será a credora do total de R$ 8 bilhões.A falta de crédito na praça também deixou empresas de todos os setores com pouco ou nenhum capital de giro. Um pequeno alívio veio com o anúncio, feito no início do mês pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o recolhimento de alguns impostos federais seria adiado por dez dias.Logo depois, Lula e Serra se reuniram para tentar prorrogar o recolhimento do Supersimples por 60 dias - a ação coordenada é necessária porque a arrecadação do tributo, pago por micro e pequenas empresas, é dividida entre União, Estados e municípios. E na sexta-feira o governador paulista anunciou a iniciativa de só cobrar em fevereiro 50% do ICMS referente ao mês de dezembro.Nesse meio tempo, o presidente enfrentou reclamações de setores de seu próprio partido e bancou a compra da Nossa Caixa pelo BB. Por um lado, Serra recebe mais de R$ 5 bilhões para ampliar a vitrine de obras para 2010. Por outro, o dinheiro investido ajuda a estimular a economia como um todo - o que combina com os planos eleitorais de Lula.FUTUROA crise levou tucanos e petistas a redesenhar os cenários para a próxima campanha presidencial. "A euforia acabou e as pessoas começam a olhar para um futuro oposicionista, pois não há mais onda de otimismo para Lula e o PT surfarem", avalia o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE)."Este é o tipo de debate inexorável, do qual não há como fugir", diz a líder petista no Senado, Ideli Salvatti (SC). Embora ache cedo para competições entre candidatos, Ideli concorda que não há como ficar fora do debate. "Está tudo precipitado. Não dá para fazer cara de paisagem", afirma.O cientista político Paulo Kramer chama a atenção para a mudança radical no cenário para 2010. Lembra que, seis meses atrás, a perspectiva para o governo era eleger um sucessor de perfil "pós-Lula" - de continuidade - mesmo que a candidatura de Dilma não vingasse. "Daqui para a frente, o que resta ao governo é torcer para o candidato pós-Lula, porque a probabilidade do anti-Lula com a crise aumenta.""Antes de chegar ao palanque, a crise vai bater nos Estados e se instalar nos palácios", prevê o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), referindo-se não apenas ao Planalto, como às dos governos paulista e mineiro - Aécio Neves, governador de Minas, também se movimenta para ser o candidato do PSDB à sucessão.Para o senador do PT paulista, as circunstâncias irão exigir muito mais parcerias acima de partidos e ideologias. "O esforço de crédito para a indústria automotiva é um exemplo de esforço político e administrativo coordenado", lembra Mercadante, referindo-se ao fato de que os dois governos, federal e de São Paulo, abriram o cofre e ajudaram as montadoras com R$ 4 bilhões cada um.O senador Delcídio Amaral (PT-MS) observa que a crise traz ao debate variáveis que não estavam presentes até agora, como a capacidade de gestão e perfil para enfrentar situações adversas. "Como a agenda era toda de Brasil grande, com o País de vento em popa, a construção de uma plataforma para a candidatura Dilma foi sempre muito positiva para o governo", avalia Delcídio.

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