Lula diz que petistas devem defender réus do mensalão

Presidente participa do 3º Congresso Nacional do PT, no Centro de Convenções Imigrantes

01 Setembro 2007 | 11h21

A uma platéia formada por petistas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o Partido dos Trabalhadores e seus militantes. "Nenhum petista tem que ter vergonha de defender um companheiro", afirmou. O presidente participa neste sábado do 3º Congresso Nacional do PT, que acontece no Centro de Convenções Imigrantes, na Zona Sul de São Paulo. "Uma luta não se faz sem dor, sem sofrimento. Já perdemos tantas pessoas que morreram jovens, velhos revolucionários. O que é importante, companheiros, é que, processados ou não, nada que nos aconteça pode nos esmorecer. Vivemos em média 70 anos. Não temos o direito de sermos derrotados", ressaltou o presidente.  Veja também: Da crise do mensalão à volta do socialismo Os quarenta do mensalão    Em seu discurso, Lula também incentivou os militantes a se orgulhar do partido."O PT não pode apequenar-se. Não tenham vergonha de ser petista, de andar com uma estrela no peito", disse.  No congresso nacional da sigla, ele reconheceu que o PT cometeu erros mas, ainda assim, é o mais ético entre todos os partidos. Acusado pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha, o ex-ministro José Dirceu estava na platéia.  Em sua fala, o presidente não fez referência direta ao julgamento recente do Supremo Tribunal Federal (STF) que abriu ação penal contra os 40 denunciados no esquema do mensalão, nem citou, por exemplo, os nomes do ex-ministro José Dirceu e do federal José Genoino (PT-SP) - réus na ação penal aberta STF. Lula afirmou que integrantes do PT podem ter cometido erros, "mas ninguém tem mais autoridade moral e ética" do que o partido. "O PT não pode se acovardar nesse debate."   E afirmou ainda que os acusados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que forem considerados culpados terão de pagar, mas eximiu os demais petistas e ele próprio de envolvimento no caso. "Saio desse congresso com a alma lavada (mesmo) sabendo que alguns companheiros nossos foram indiciados pela Suprema Corte brasileira", afirmou o presidente, em discurso de uma hora para cerca de mil petistas.  Lula ponderou que há tempo para que os acusados se defendam, mas alertou: "Quem errou estará subordinado às mesmas leis, às mesmas regras que os 190 milhões de habitantes deste país". "Vocês sabem que não costumo falar sobre decisões da Justiça. Mas eu queria que os petistas tivessem em mente uma coisa. Até agora nenhum deles foi inocentado, mas também nenhum deles foi culpado. E somente esses companheiros, nem eu nem vocês, sabemos o que aconteceu", completou.  Segundo ele, é preciso que o partido fique também alerta à tentativa constante da oposição de diminuir a força política e minimizar os resultados alcançados pelo governo federal.  Lula também destacou as conquistas de seu governo. "O PT é um dos principais responsáveis pelos passos largos que o país está dando".  Lula ressaltou ainda que o PT passou por mudanças, porque também a realidade mudou. Ele lembrou que, durante 27 anos de existência do PT, era comum, nas reuniões do partido, haver faixas com o pedido de "fora FMI (Fundo Monetário Internacional)". Agora, afirmou, "o FMI não está mais aqui".  José Dirceu, que também esteve na abertura do Congresso, foi considerado pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, como mentor do esquema do mensalão. O ex-ministro vai responder a processo penal por crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa por envolvimento com a suposta compra de votos de aliados pelo partido. A decisão, tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julgamento que terminou na terça-feira, atingiu outros dirigentes da sigla, como o ex-presidente José Genoino, o ex-tesoureiro Delúbio Soares, o ex-secretário-geral Silvio Pereira, além do ex-ministro Luiz Gushiken. Para o ministro da Justiça, Tarso Genro, "o que o presidente falou é que as pessoas não podem ser julgadas previamente e que ninguém pode se envergonhar de ter solidariedade com essas pessoas". O ministro faz campanha dentro do partido para se crie uma corregedoria e um código de ética que punam desvios, proposta apoiada por tendências mais à esquerda. Adversários de Tarso, com destaque para a principal corrente petista (Construindo Um Novo Brasil), vêem na medida a instalação de um departamento de polícia na legenda.  Candidatura em 2010 O presidente Lula também passou um recado claro aos integrantes do partido sobre a eleição presidencial de 2010. Afirmou que seu sucessor não deve sair necessariamente do PT, manifestação que foi feita por muitos petistas na abertura do evento. "Disse e reafirmo que passarei a faixa presidencial para meu sucessor no dia 1º de janeiro de 2011. Lutarei, no entanto, para que o futuro presidente seja alguém identificado com o nosso projeto, capaz de dar continuidade e profundidade à obra que nós iniciamos", afirmou, acrescentando que tanto o PT como os aliados que formam a coalizão de governo têm nomes para a sucessão.  Para o secretário-geral da Presidência da República, ministro Luiz Dulci, o ideal é que a coalização do PT com os partidos aliados tenha um único candidato à eleição presidencial de 2010. "Minha posição é a mesma do presidente, que a coalização tenha um candidato." Questionado se a idéia seria o PT liderar a chapa, ele respondeu que a questão ainda não foi decidida e deve ser tratada "em momento oportuno". Na avaliação do ministro, seria precipitado decidir sobre possíveis nomes nesse momento. "Estamos em uma fase preliminar, faltam três anos e meio para a eleição e o Lula acabou de ser reeleito", ponderou. Apesar disso, Dulci disse considerar natural "que o PSDB tenha candidato, o PMDB tenha candidato e o PT queira ter candidato". Segundo ele, o momento atual é de afirmação dos partidos e das principais lideranças. "As conseqüências práticas das decisões só serão vistas a partir de 2009." Ele afirmou não saber se a decisão de o PT ter um candidato próprio será votada no 3º Congresso Nacional.  O congresso do PT é o terceiro em 27 anos de existência da legenda e foi convocado justamente em meio a crise do mensalão, em 2005. O evento tem poder para mudar o estatuto e o programa da legenda. A antecipação das eleições internas para este ano, a convocação de uma Constituinte exclusiva para realizar a reforma política e a sucessão de Lula em 2010 estão entre os temas do evento. Berzoini Mais cedo, o presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), considera a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao 3º Congresso do partido como mais um reencontro com a militância. "O grande desafio do PT é construir as condições políticas, não apenas de dar sustentação ao governo com outros partidos, mas de construir com os movimentos sociais o acúmulo de forças e consciência política para dar continuidade a sua obra, a partir de 2010", disse, dirigindo-se a Lula, segundo informações do site do partido. Conforme texto do PT na Internet, Berzoini ressaltou o contato permanente que Lula tem com a militância petista, espalhada pelo país, em movimentos de luta pela terra, pela moradia, pela saúde, pela educação, pelo meio ambiente, das mulheres, de todas as formas de discriminação racial e homofóbica, além do papel que muitos exercem no governo. O líder petista afirmou que o PT reconhece os "extraordinários avanços" do governo Lula, composto não apenas pelo PT, mas por uma coalizão de onze partidos, responsáveis pela construção de uma nova política para o país. "O PT sabe de sua responsabilidade e que está associado às realizações, desafios e contradições desse governo", declarou. "O PT tem compromisso com a democracia, não apenas formal, mas econômica, social e cultural para que possamos incluir e fazer uma nação digna. É assim, que vamos construir novas vitórias e novos caminhos para o PT." (Com Reuters)(Colaborou Chiara Quintão, da Agência Estado) Texto atualizado às 17h10

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