Lula diz que nunca esteve tão perto de um acordo sobre Doha

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, disse na tarde deste sábado que em nenhum momento acreditou que os países estivessem tão perto de um acordo para a retomada das negociações da Rodada Doha. Em Camp David, onde teve encontro com o presidente norte-americano, George W. Bush, ele afirmou "ser necessário um consenso sobre Doha, para que seja reduzida a pobreza global"."Saio daqui falando que nunca vi, em nenhum momento, tão otimista de que estamos perto de fazer um acordo para a Rodada Doha. Temos urgência de um acordo ambicioso e equilibrado. E os Estados Unidos sabem disso", discursou Lula, o primeiro presidente latino-americano a ser recebido por Bush em Camp David.Bush concordou com Lula. Em entrevista coletiva, Bush disse estar confiante com os avanços nas conversações. Contudo, lembrou que, para a rodada avançar, é necessário que alguns países abram seus setores de serviços e de manufatura aos Estados Unidos, e não apenas que os norte-americanos reduzam seus subsídios agrícolas. "Tenho certeza de que, para aliviar a pobreza do mundo, a solução é o comércio", disse.Os dois presidentes trataram ainda da parceira, firmada em São Paulo dia 9 de março, para o desenvolvimento de biocombustíveis. Lula aproveitou a oportunidade para pedir a redução norte-americana das barreiras impostas ao etanol, atualmente de US$ 0,54 por galão.Lula e Bush citaram acordos firmados para melhorar a qualidade de vida e a democracia no Haiti e em países pobres da África, como São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau. O presidente norte-americano disse apreciar a liderança brasileira no país caribenho e nas Nações Unidas, garantindo que os EUA irão colaborar para que o desenvolvimento do Haiti. A ajuda norte-americana em projetos para a infra-estrutura do Haiti era uma das requisições de Lula a Bush no encontro."Quando Estados Unidos e Brasil sentam na mesa, podem esperar grandes decisões. Agora, depois das discussões, terei o prazer de passear com Lula e vou alimentá-lo, se estiver com fome", disse Bush, em tom bastante informal.Meio AmbienteComo no discurso na Transpetro, em São Paulo, durante a visita de Bush, Lula voltou a dizer que o século XXI será o século da mudança, em que todos os países devem atuar e pensar na questão climática do planeta."Chamamos de irresponsáveis os que nos alertaram e criticávamos os grupos minoritários que iam para as rua defender a preservação ambiental. Agora, chegou a hora e a vez do mundo levar a sério a questão", disse. "Proteção ao meio ambiente, desafio energético e redução da pobreza são os grandes temas e preocupações deste século", acrescentou.Segundo Lula, o problema ambiental não pode ser postergado e a solução é viável e está ao alcance de nossas mãos. EtanolBush lembrou a visita feita há cerca de duas semanas ao Brasil e se disse impressionado com a produção nacional de etanol. Ele afirmou ter "todo interesse" em promover a produção de biocombustíveis e trabalhar com o Brasil nesse sentido. "O aquecimento global é um problema assustador e é um dos maiores riscos do planeta", afirmou. O presidente informou ainda que o Brasil vai sediar uma conferência internacional sobre biocombustíveis em 2008, e que os Estados Unidos foram convidados a participar. Por sua vez, Lula informou que haverá missões de cientistas entre os dois países para o intercâmbio de tecnologia e que será criado um fundo de cooperação buscando o desenvolvimento de biodiesel em países pobres da América e da África. "A bioenergia é uma oportunidade limpa de diversificação energética e pode reduzir a pobreza e levar ao desenvolvimento", disse.Segundo ele, a questão dos biocombustíveis já estava em pauta em 1925, mas a alta disponibilidade e o baixo preço do petróleo impediu que as nações levassem adiante o projeto. "Para cada trabalhador em uma usina de biodiesel no Brasil, é preciso de mil trabalhadores no campo. Ele gera milhões de empregos. E isso não estava previsto em nenhum documento assinado", disse Lula.Entre a pauta de discussões esteve ainda os problemas no Oriente Médio e a criação de um Estado Palestino, que, segundo Lula, deve ser erigido "respeitando as soberanias e com viabilidade".DiscordânciaSaindo do discurso, o presidente brasileiro contou que o único ponto de divergência entre ele e Bush foi a reforma no Conselho de Segurança da ONU, no qual o País almeja uma vaga entre os membros permanentes."Temos divergência em política. Mas, fiz questão de mostrar a Bush a visão do Brasil e chegamos a conclusão de que a reforma do Conselho passa antes por outras reformas dentro da ONU", afirmou."Estou com 64 anos e tenho ainda mais quatro anos de mandato pela frente. Tenho certeza que a reforma será concluída. É um assunto complexo, mas não pode ser mais adiado", cobrou.

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