Lula diz que não vai fazer 'pirotecnia anti-cubana'

Presidente diz que vê evolução política no país; encontro com Fidel foi à tarde.

Denize Bacoccina, BBC

15 de janeiro de 2008 | 21h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que vê uma evolução política em Cuba e que o Brasil não vai fazer "pirotecnia anti-cubana" no caso dos músicos cubanos que, em dezembro, decidiram ficar no Brasil depois de uma série de apresentações no país.Lula falou sobre a evolução política ao ser questionado se via no país uma abertura política, além da abertura econômica, já que Cuba está interessada em receber mais investimentos estrangeiros."Para nós o importante é que Cuba assinou o Protocolo de Direitos Civis e Políticos da ONU e vai assinar o Direito Econômico. Para nós é importante essa evolução política", afirmou o presidente, completando que o Brasil quer contribuir para a inserção internacional de Cuba "mas sem nenhuma ingerência"."Não damos palpite na política de nenhum país porque não queremos que as pessoas dêem palpite nas coisas do Brasil", afirmou.Os protocolos são os dois mais importantes tratados sobre direitos humanos na ONU, de acordo com o Itamaraty. O chanceler cubano, Felipe Perez Roque, anunciou no fim do ano passado que Cuba irá ratificar os dois acordos até março deste ano.Lula se encontrou sozinho com o presidente licenciado de Cuba, Fidel Castro, sem a presença de outros integrantes de sua comitiva. O presidente brasileiro passou o dia todo sem confirmação se seria ou não recebido por Fidel, que Lula conhece desde os anos 80, quando era líder sindical no Brasil.A informação da reunião só foi repassada à imprensa quando o encontro estava em andamento, às 17h00 de Cuba (20h00, hora de Brasília).DissidentesLula falou sobre os dissidentes porque eles foram citados numa pergunta sobre se o tema direitos humanos estava na pauta da visita. "Sempre esteve na pauta", afirmou o presidente. A posição do governo brasileiro é de que esses assuntos devem ser tratados nas conversas bilaterais, mas não devem ser divulgados em público.O governo foi muito criticado por ter entregue ao governo cubano os atletas que abandonaram suas equipes durante os Jogos Pan-Americanos, em julho, e ficaram no Brasil. Em dezembro, um grupo de músicos cubanos também decidiu não voltar para Cuba e ficar morando no Brasil."Não queremos contribuir para cercear a liberdade das pessoas de poderem escolher o país onde vão morar, mas também não queremos criar nenhuma pirotecnia anti-cubana como de vez em quando se tenta criar no mundo", afirmou o presidente."Nós queremos ser parceiros para as boas causas neste momento da história do Brasil", disse Lula."Geração apaixonada""Eu sou da geração que é apaixonada pela revolução cubana", afirmou Lula, contando que visita o país desde 1985."Eu estou torcendo pra que Fidel tenha uma recuperação extraordinária. Se eu vou visitá-lo ou não vai depender dessa recuperação", afirmou Lula na hora do almoço. Lula conversou com a imprensa brasileira no jardim da residência do embaixador brasileiro em Havana.Quando começou a chover, logo no início da entrevista, Lula não quis mudar para um local mais protegido, e disse que não precisava do guarda-chuva que um assessor lhe ofereceu. "Vamos socializar a chuva", afirmou.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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