Lula diz que alta dos alimentos é 'inflação boa'

Para o presidente, aumento dos preços mostra que as pessoas 'estão comendo mais' e gera produção maior

BBC BRASIL,

11 de abril de 2008 | 10h55

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira, 11, que a atual elevação mundial do preço dos alimentos é uma "inflação boa", que "convoca" os países a produzir mais e atender à demanda por alimentos no mundo.  Veja também:Debate sobre biocombustível deve ser feito com fatos, diz LulaLula não dá palpite sobre juros, mas quer combater inflaçãoONU pede medidas urgentes contra inflação de alimentosProdução maior é saída contra inflação, diz LulaEspecial sobre a crise de alimentos Celso Ming explica a alta da inflação  Entenda os principais índices de inflação  Em uma entrevista a jornalistas brasileiros em Haia, na Holanda, Lula voltou a repetir a sua visão positiva sobre o encarecimento dos gêneros alimentícios, contrariando os alertas, em tom mais sombrio, de organismos como o braço da ONU para a alimentação, a FAO.  "A inflação sobre os alimentos é decorrente do fato de que as pessoas estão comendo mais", disse Lula. "Ora, na medida em que mais gente começa a comer carne, produtos de soja, trigo... se a produção de alimentos não aumentar, obviamente que nós vamos ter inflação." Nas últimas semanas, a ONU alertou para a alta dos alimentos, que significaram a duplicação dos preços das matérias-primas desde 2007. Organismos internacionais alertam para os efeitos nocivos da alta de preços de gêneros básicos.  O encarecimento já afeta importantes programas de combate à fome, como o Programa Mundial de Alimentos da ONU, que precisa suprir um rombo de US$ 500 milhões, disse na quarta-feira o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick.  Quase no mesmo instante, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, conclamava o G8, o grupo das sete economias mais industrializadas do mundo e a Rússia, a discutir o problema.  Lula disse que este fenômeno é "uma inflação boa". "Por quê? Porque está nos provocando a produzir mais", argumentou. "Os sinais de inflação nos alimentos, demonstrando que o povo está comendo mais, são uma boa provocação e ao mesmo tempo uma convocação ao mundo de que se precisa produzir mais alimentos."  Brasil  No caso brasileiro, Lula deu a entender que a inflação está sob controle, porque o governo sabe onde estão ocorrendo os aumentos. Segundo ele, só o feijão e o leite representam 0,7 ponto percentual no índice de 4,5% ao ano. Sem eles, "a inflação seria de 3,8% ou seria de 2,9% se houvesse menos aumento de alguns produtos", disse Lula.  Ele afirmou que é possível combater esta alta com um aumento equivalente na produção de alimentos. "O feijão, em três meses se planta e colhe", exemplificou.  Lula afirmou ainda que pediu ao Ministério da Agricultura que comece a "trabalhar a possibilidade" de fazer com que o Brasil se torne auto-suficiente na produção de trigo, matéria-prima de produtos básicos importantes, como o pãozinho e as massas.  Segundo o presidente, a idéia é que os ministérios ligados à economia e à produção alimentícia estudem "os produtos que estão incidindo sobre a inflação, para ter políticas especiais de incentivo a esses produtos".  O presidente voltou a citar números que mostram a disponibilidade de terras no Brasil: 400 milhões de hectares de terras aráveis, dos quais se aproveita "muito pouco".  "(Precisamos) produzir mais arroz, mais milho, feijão, produzir mais as coisas que nós consumimos, não apenas para consumo interno, mas também para exportação. Nós temos uma enormidade e um potencial fantástico para que a gente possa aumentar nossa produção agrícola, atender aos interesses do povo brasileiro e atender a uma parte do mundo."  Pobreza O presidente afirmou ainda que o país está nos trilhos da estabilidade econômica, até porque o está combatendo as causas estruturais da pobreza. "Não há combate à pobreza com uma inflação corroendo salários. Mas o crescimento duradouro exige a incorporação dos excluídos ao mercado consumidor", disse o presidente.  Ele lembrou que o Brasil deixou de ser devedor e que agora pode planejar um futuro "sem ter ficar refém de incertezas". "Nós não nos isolamos dos problemas da economia mundial, mas estamos aptos a enfrentá-los".  O presidente citou que 10 milhões de empregos foram criados e que esse número tem impacto além da economia, porque gera cidadania. "Precisamos transformar estruturas econômicas e comerciais. Somente assim surgirão poções produtivas para países que não conseguem competir nos mercados internacionais. Esse é o objetivo da rodada Doha da OMC (Organização Mundial do Comércio). Cabe aos países desenvolvidos darem um passo na direção de uma liberação eqüitativa que elimine os subsídios agrícolas e outras distorções do comércio mundial", afirmou.  "Queremos que o processo negociador alcance um acordo que seja equilibrado e faça jus ao mandato da rodada do desenvolvimento", acrescentou.

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