Lula diz esperar que Deus 'ponha a mão na cabeça de Moro' para que ele seja justo

Ex-presidente afirmou que juiz da Lava Jato pode ter sido picado pela 'mosca azul', expressão associada a orgulho excessivo e soberba

Ana Fernandes e Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2016 | 19h11

São Paulo - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta segunda-feira, esperar que o juiz Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato, atue com justiça, com ele próprio e com todas as pessoas investigadas na operação. "Espero que Deus ponha a mão na cabeça dele, que ele seja justo com as pessoas que ele está analisando e julgando. Só espero isso. Não quero nada mais, nada menos, quero ter o tratamento que todo cidadão brasileiro tenha neste País", afirmou. Lula disse ter a expectativa de que Moro aja como qualquer juiz e contribua com a democracia brasileira ao respeitar o direito de defesa e ao "ouvir as pessoas".

O ex-presidente petista disse que Moro é considerado uma pessoa competente, mas que pode ter sido picado pela "mosca azul" - figura de linguagem associada ao orgulho e à soberba. "Tudo que se sabe do juiz Moro é que ele é uma figura inteligente, competente, mas como ser humano temo que a mosca azul faça seus efeitos", afirmou mencionando a atenção dada pela mídia ao magistrado.

Lula afirmou que se sentiu "ofendido" com a divulgação de grampos telefônicos envolvendo conversas suas com a presidente Dilma Rousseff, com o atual chefe de gabinete da Presidência Jaques Wagner, com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, entre outros. "Primeiro, me sinto, como brasileiro, indignado." Ele também reclamou da atuação da mídia.

"Acho que o juiz deveria ter muita responsabilidade e não confundir conversas de ordem pessoal com conversas públicas. E muito mais grave ainda é a imprensa utilizar como se fizesse parte de um circo. Duvido de quem nesse País não se converse por telefone, com parentes ou com amigos, qualquer bobagem, qualquer coisa."

Lula disse ter achado "deprimente" a decisão de divulgar os áudios. "Achei deprimente, pobre e de má-fé. O juiz por mais que seja juiz não foi correto fazendo a divulgação de coisas privadas. Se tivesse alguma coisa relacionada com o que ele estava investigando (...). lamento, acho que isso empobrece o Brasil. Fico imaginando se a gente tornar hábito, começar a divulgar as gravações (ligações) que cada um de nós faz. Não contribui com a democracia."

Um dos grampos trazia Lula combinando com Dilma que receberia um termo de posse para usar caso fosse necessário. Críticos dizem que era uma forma de Lula se defender de eventual prisão decretada por Moro. O governo alegou que o documento era para o caso de o ex-presidente não conseguir ir à cerimônia de posse em Brasília. Entre outros trechos polêmicos, Lula afirmou que o Congresso e ministros do Supremo estavam "acovardados".

Nesta segunda, o petista reforçou o discurso de que ele e o PT estão sendo perseguidos. "O objetivo sempre é tentar destruir a imagem do Lula. Faz anos, não é a primeira vez. Quando eles começaram a tentar destruir minha imagem eu não tinha nem 50 anos, estou com 70", disse e completou dizendo não estar longe o dia em que "alguém" terá de pedir desculpas a ele. "Embora seja sofrível, magoe profundamente, sou uma pessoa de muita paciência. Acho que não está longe o dia em que alguém vai ter que pedir desculpas pra mim. Não quero nada, só quero que peçam desculpas", afirmou ao reclamar de como os casos envolvendo o sítio em Atibaia e o tríplex no Guarujá estão sendo divulgados.

Lula fez as declarações em entrevista coletiva de cerca de duas horas a correspondentes de veículos internacionais, em um hotel na zona sul de São Paulo. A imprensa brasileira não foi autorizada a acompanhar a entrevista. A última vez que Lula cedeu uma coletiva a jornalistas brasileiros foi em 3 de dezembro, no Rio de Janeiro, após participar de um evento com o governador Luiz Fernando Pezão.

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