Lula dirá que foi traído por controladores de vôo

Apesar de ter se comprometido, na última sexta-feira à noite, a atender às reivindicações dos controladores de vôo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta segunda-feira, 2, durante a reunião ministerial, no Planalto, que vai fazer um pronunciamento à Nação sobre a crise aérea e dizer que foi traído. Na mesma reunião, o presidente manifestou a intenção de se pronunciar entre esta segunda-feira e esta terça-feira. Ainda na reunião, Lula disse aos ministros que os controladores de vôo traíram o governo porque não entenderam que havia disposição para resolver os problemas do setor aéreo e, ainda por cima, esperaram ele viajar para os EUA, em missão oficial, para deflagrar o movimento. Segundo relato de um ministro ao Estado, Lula afirmou ainda que diante da forma "traiçoeira" como foi deflagrado o movimento dos controladores de vôo, ele não teve outra saída a não ser negociar com as lideranças dos sargentos para evitar o caos completo nos aeroportos.Durante a reunião ministerial desta manhã, Lula informou que vai pedir ajuda internacional, de forma emergencial, no controle dos vôos comerciais. Ele dirá, no pronunciamento à Nação, que os problemas não são fáceis de resolver a curto prazo. O governo já sabe que a transferência dos controladores militares para um órgão civil de controle da aviação civil exige estudos jurídicos. "Não é simples, não é só entregar a farda e encerrar a carreira militar", disse um ministro ao Estado. Até mesmo a questão salarial vai ser renegociada porque os controladores civis ganham mais que os militares.A ordem no Planalto também é de não atrapalhar os planos do Ministério Público Militar, que deve entrar com processo para investigar e processar os controladores de vôo que, em princípio, atentaram contra os códigos militares de disciplina. AtritosNa última sexta-feira, os sargentos controladores de vôo do Cindacta-1 (centro de controle de tráfego aéreo em Brasília) entraram em greve. A paralisação gerou atrasos e criou uma situação caótica nos aeroportos brasileiros. O comando da Aeronáutica decidiu prender os amotinados. No entanto, o presidente Lula impediu a prisão e abriu uma crise entre os militares. Para oficiais-generais ouvidos pelo Estado, a ordem presidencial ?maculou? a hierarquia e a disciplina, pilares das Forças Armadas. Na visão dos militares, a ordem de suspender as prisões dos amotinados foi um duro golpe na Força Aérea, uma desautorização que provocou desgaste coletivo - já que todos os integrantes do Alto Comando haviam se dirigido ao Cindacta com Saito para apóia-lo na prisão, mas acabaram deixando a unidade militar porque um ministro civil (Paulo Bernardo, do Planejamento) estava assumindo as negociações. Apesar do alívio do governo com o acordo feito com os controladores de vôo em Brasília, militares advertem que este é só o começo de um longo caminho, que o Planalto não tem idéia do quão tortuoso poderá ser. A maior preocupação dos militares é com o efeito cascata da decisão de não punir os amotinados, não só na própria Aeronáutica, como nas demais Forças. A desautorização gerou protestos também no Clube de Aeronáutica, entidade composta majoritariamente por militares da Força Aérea Brasileira na reserva. O clube enviou, no último domingo, mensagem aos seus associados atacando duramente o governo. Assinada pelo seu presidente, o tenente-brigadeiro do Ar, Ivan Frota, o Clube ameaça entrar no Supremo Tribunal Federal (STF) com Ação Direta de Inconstitucionalidade contra as decisões do presidente Lula de não punir os controladores rebeldes e desmilitarizar o controle do tráfego aéreo, e denunciá-lo por crime de responsabilidade. (Colaboraram Tânia Monteiro e Fábio Graner)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.