Lula deveria ter demitido Palocci antes, diz FHC

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria ter agido há muito mais tempo e demitido o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ao tomar conhecimento das primeiras notícias de que o ministro estaria envolvido nas reuniões da mansão da chamada "República de Ribeirão Preto", onde lobistas e ex-assessores de Palocci se reuniam para participar de festas com garotas de programa e partilhar dinheiro de origem ilegal. A opinião é do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi apresentada hoje em uma breve declaração que ele deu à imprensa, ao deixar o Grand Hyatt Hotel, na capital paulista, após participar de um evento da empresa HayGroup. "Eu, por muito menos, tirei muitos ministros que não tinham culpa no cartório", comparou FHC.Segundo ele, embora Palocci não tenha sido julgado pela Justiça, há muitas evidências e "sempre numa área de falta de correção". "Isso é muito grave é uma acusação preocupante. Imagino que o presidente Lula deveria ter agido há muito mais tempo", opinou.Para FHC, poucas vezes o Brasil viveu um momento tão delicado quanto o que acontece neste momento, em termos de incorreção ética dentro de um governo. "Fico olhando isso e me pergunto: onde é que vamos parar? Sinceramente, neste momento, meu sentimento, como brasileiro, é de indignação e preocupação", declarou.O ex-presidente não quis responder outras perguntas de jornalistas. No evento, FHC proferiu palestra sobre "O Brasil de Classe Mundial", na qual ele evitou tecer críticas ao momento político e até mesmo à conjuntura econômica do País. Limitou-se a dizer, por exemplo, que a taxa de investimento do governo federal, hoje posicionada em torno de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), está muito baixa e aquém das necessidades do País, quando o próprio governo brasileiro, no passado, já chegou a atingir patamares de 3% do PIB.Ele observou também que o País precisa elevar o seu nível de poupança e também o volume de investimento privado para algo próximo de 23% do PIB. Hoje, este investimento estaria, segundo FHC, em 19% do PIB.Para enfrentar as dificuldades de desenvolvimento do País, ele entende que, além da expansão do investimento, é fundamental que o Brasil avance na expansão e na qualidade da Educação. "Ou tomamos consciência e colocamos essa questão como número 1 das preocupações, não do governo, mas da sociedade, ou nós não vamos completar o salto que começamos a dar e não atingiremos a classe mundial de excelência", opinou.Para ele, os avanços na Educação terão de ser obtidos pelos Estados, pois à União cabe o papel de tentar homogeneizar o desenvolvimento do País, o que, no caso brasileiro, é inviável ou demasiadamente demorado. "Temos que ter ilhas de excelência e que depois se reproduzam no restante do País. São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Distrito Federal são algumas áreas para se concentrar e, depois, trazer efeitos sobre as demais. Cabe isso aos governos Estadual e municipal e à pressão da sociedade para acesso ao padrão global", argumentou.Com relação ao futuro, FHC acrescentou que o crescimento demográfico do Brasil tem se posicionado entre 1,1% a 1,2%, o que resultará, no futuro, na estabilização do contingente populacional. Por isso, se o Brasil buscar ganhos efetivos de produtividade, terá condições, em 2030, de se colocar como um país de classe mundial, uma vez que, na projeção dele, a demanda por ocupação no mercado de trabalho cairá pela metade, em comparação aos níveis atuais.

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