Lula: ''''Desaparecidos são ferida aberta''''

Ao lançar livro que contesta versão do regime militar, presidente diz que todos têm direito de enterrar seus mortos

Vannildo Mendes e Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2030 | 00h00

Brasília - Com o apoio do presidente da República, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos lançou ontem, no Palácio do Planalto, um livro-relatório especial para estabelecer um marco histórico no País: enterrar as versões dadas pelo regime militar (1964-1985) para o desaparecimento de presos políticos. A versão oficial do período para a comissão, que funciona junto ao Ministério da Justiça, passa a ser a do livro Direito à Memória e à Verdade. O livro diz na abertura: "Não poderiam seguir coexistindo versões colidentes com a de inúmeros comunicados farsantes sobre fugas, atropelamentos e suicídios, emitidos naqueles tempos sombrios pelos órgãos de segurança, e a dos autores das denúncias sobre violação de direitos humanos". Na solenidade de lançamento do livro, carregada de emoção, mas também marcada pela ausência de chefes militares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a falta de informações para a localização dos corpos dos desaparecidos "é uma ferida que permanece aberta". Segundo o presidente, "é direito dos familiares, por tradição milenar, reivindicar o justo direito de sepultar seus entes queridos". "É esse direito que queremos resgatar sem rancor, sem revanchismo de qualquer ordem", disse, citando um conjunto de esforços para identificação de corpos de desaparecidos. Ele admitiu também ajustar a legislação e insinuou a adoção do benefício da delação premiada para militares ou civis que tragam informações que possam levar à localização de corpos e esclarecimento de crimes. Lula disse que a iniciativa não tem qualquer sentido de revanchismo e lembrou que a lei da anistia impede esse tipo de retaliação. O presidente reconheceu que o debate em torno dos desaparecidos políticos "tem ressentimento, tem dor e lágrima". E avisou: "É preciso fazer pela sociedade e vamos fazê-lo". Sobre os arquivos que ainda não foram abertos, lembrou que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, "é responsável por isso" e que grande parte deles já foi para o Arquivo Nacional. "Nós queremos contribuir e trabalhar para que a sociedade brasileira feche a página desta história, vire a página de uma vez por todas e que a gente possa construir um futuro com muito mais solidariedade, mais irmanados, a sociedade trabalhando junto, esquecendo um pouco o que foi o regime autoritário", declarou Lula. "Acho que há disposição para isso. Acho que há vontade dos militares, da polícia. O que nós vamos fazer é aquilo que temos condições de fazer", prosseguiu o presidente, informando que a comissão dos desaparecidos vai ser ampliada. "Vamos ver quais as dificuldades, preparar novos membros e continuar o debate", declarou. PROCESSOSOrganizada pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a publicação, de 500 páginas, detalha os processos a respeito de mais de 400 desaparecidos políticos e traz, pela primeira vez no Brasil, o reconhecimento de Estado de que as forças da repressão cometeram crimes como torturas, esquartejamentos, estupros e ocultação de cadáveres de vítimas do regime. Parentes das vítimas e entidades de direitos humanos lotaram o salão nobre do Palácio do Planalto. Número expressivo de ministros, vários deles ex-exilados, ex-presos e ex-perseguidos, prestigiou o ato - entre os quais a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ex-guerrilheira da Aliança Libertadora Nacional. A solenidade começou com execução da música O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, adotada como hino informal da campanha pela anistia. Enquanto a artista Kiki Freitas cantava a música, telões passavam flashes com imagens de ícones da esquerda, mortos ou exilados pela repressão. Entre eles, o jornalista Wladimir Herzog, assassinado em 1975 no DOI-Codi de São Paulo, e o capitão Carlos Lamarca, militante da ALN, considerado traidor pelo Exercito. Momento de maior emoção ocorreu quando Elzita Santa Cruz, de 94 anos, mãe do militante Fernando Augusto Santa Cruz, desaparecido em 1974, disse com a voz embargada que há 30 anos espera o filho chegar, como fazia a mãe de um soldado que foi à Guerra do Paraguai. "Queria ao menos fazer o enterro do meu filho, saber o que aconteceu." Emocionada, disse que sentia "saudade eterna de mãe" e não conseguiu encerrar a frase. Lula foi abraçá-la.

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