Lula defende uso de passagens por mulheres de políticos

Presidente admite que ele mesmo, quando era deputado, usou sua cota para levar sindicalistas a Brasília

Fabiana Cimieri, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2009 | 12h51

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu nesta sexta-feira, 1º, que, quando era deputado, usou a cota de passagens da Câmara dos Deputados para levar sindicalistas à Brasília. Para ele, não é correto usar os bilhetes para fazer turismo na Europa, mas disse não considerar crime nenhum usá-las para levar a mulher ou sindicalistas para a capital federal.

 

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"Não acho um crime um deputado dar uma passagem para um dirigente sindical ir a Brasília. Quando eu era deputado, muitas vezes convoquei dirigentes da CUT e outras centrais para se reunir com passagens do meu gabinete. Graças a Deus, nunca levei nenhum filho meu para a Europa. Mas um deputado levar a mulher para Brasília, qual é o crime?", questionou Lula, depois de participar da inauguração de um hospital de reabilitação da Rede Sarah, no Rio.

 

Para o presidente, a imprensa dá muita importância a um assunto que é banal e que poderia ser resolvido pela própria Mesa Diretora da Câmara. "Falam como se fosse um novidade uma coisa que é mais velha do que a História do Brasil". "Esse assunto está há um mês na imprensa, e temos coisas mais importantes para discutir", criticou Lula.

 

Conforme reportagem do Estado, no jantar na quarta-feira à noite com os presidentes da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP) e do Senado, José Sarney (PMDB-AP), Lula já havia sinalizado sua disposição de dar declarações públicas em defesa do Congresso.

 

"Eu ainda vou criar o Dia da Hipocrisia", discursou Lula na inauguração do hospital. "Logicamente, guardar a passagem para ir à França é delicadíssimo, mas levar a mulher ou um sindicalista para Brasília, não vejo onde está o crime. Se esse fosse o mal do Brasil, o Brasil não tinha mal".

 

Lula concluiu o discurso agradecendo às duas Casas pelas contribuições em discussões políticas importantes e dizendo que "de vez em quando a imprensa tenta vender uma briga entre a presidência e Congresso".

 

Ele foi bastante aplaudido pela plateia, que incluía as atrizes Fernanda Montenegro e Eva Wilma. O deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), que admitiu ter dado passagens de sua cota para uma filhas viajar para o Havaí, ouviu em silêncio.

 

"Acho que o escândalo das passagens pode refletir no crescimento do voto nulo e numa vontade de renovação do Congresso", afirmou Gabeira, antes do início da solenidade. Ele admitiu que o episódio pode prejudicar uma possível candidatura sua intenção ao governo do Rio em 2010.

 

Gastos públicos

 

Lula também classificou como hipocrisia o fato de salários de R$ 8 mil ou R$ 10 mil pagos a servidores públicos serem taxados de altos pela imprensa, enquanto a iniciativa privada paga muito mais. Sem citar o nome do ex-presidente da BR, Rodolfo Landim, o presidente mencionou que a Petrobras era criticada por lhe pagar um salário de R$ 26 mil. No entanto, ele deixou a estatal para dirigir o grupo Pão de Açúcar e ganhar R$ 200 mil por mês, com o pagamento de dois anos de salário adiantado e, seis meses depois, foi contratado por uma outra empresa para ganhar o dobro. "Agora sim ele é marajá", brincou Lula.

 

"O caro não é pagar em função do merecimento. Caro é pagar um monte de incompetente para fazer uma função nobre e ele não conseguir fazê-la corretamente", criticou o presidente, acrescentando que o que mede o profissionalismo de um hospital, por exemplo, não é o número de funcionários encostados no corredor.

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