Lula defende reforma do modelo de desenvolvimento global

Em discurso no debate geral da 59ª sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o caminho da paz duradoura passa necessariamente por uma nova ordem internacional, que garanta oportunidades reais de progresso econômico e social a todos os países. "Exige, por isso mesmo, a reforma do modelo de desenvolvimento global e a existência de instituições internacionais efetivamente democráticas, baseadas no multilateralismo, no reconhecimento dos direitos e aspirações de todos os povos", disse Lula. "Só os valores do Humanismo, praticados com lucidez e determinação podem deter a barbárie. A situação exige dos povos e seus líderes, um novo senso de responsabilidade individual e coletiva. Se queremos a paz, devemos construí-la", observou o presidente. Lula citou que apenas este ano, mais de 700 pessoas já morreram vítimas de ataques terroristas, ao redor do mundo, referindo-se a atentados em Madri, Bagdá e Jacarta. "Tragédias que vêm somar-se a tantas outras, na Índia, Oriente Médio, nos EUA e, recentemente, ao sacrifício bárbaro das crianças de Beslan (Rússia). "A humanidade está perdendo a luta pela paz", afirmou o presidente.Globalização assimétrica aprofunda legado de misériaO presidente ressaltou a necessidade da construção mundial pela paz e destacou as desigualdades sociais como um dos elementos que contribuem para a tensão geopolítica mundial. Segundo Lula, de 191 Estados-Nação, 125 deles foram submetidos no passado ao julgo de umas poucas potências que originalmente ocupavam menos de 2% do globo. "O fim do colonialismo afirmou, na esfera política, o direito dos povos à autodeterminação. Esta Assembléia é o signo mais alto de uma ordem fundada na independência das Nações. A transformação política, contudo, não se completou no plano econômico e social. E a história demonstra que isso não ocorrerá espontaneamente", disse Lula. Lula afirmou que, em 1820, a diferença de renda per capita entre o país mais rico e o mais pobre do planeta era inferior a cinco vezes; hoje essa diferença é de 80 vezes. "Os antigos súditos converteram-se em devedores perpétuos do sistema econômico internacional", disse Lula. "Barreiras protecionistas e outros obstáculos ao equilíbrio comercial, agravados pela concentração dos investimentos, do conhecimento e da tecnologia, sucederam ao domínio colonial", afirmou. Segundo ele, nas últimas décadas a "globalização assimétrica e excludente aprofundou o legado devastador de miséria e regressão social, que explode na agenda do século XXI".O presidente brasileiro disse que hoje, em 54 países, a renda per capita está mais baixa do que há dez anos e que em 34 países a expectativa de vida diminuiu. "Em 14 países, mais crianças morrem de fome", ressaltou. "Na África, onde o colonialismo resistiu até o crepúsculo do século XX, 200 milhões de seres humanos estão enredados no cotidiano de fome, doença, e desamparo, ao qual o mundo se acostuma, anestesiado pela rotina do sofrimento alheio e longínquo. Da crueldade, não nasce o amor. Da fome e da pobreza, jamais nascerá a paz. O ódio e a insensatez que se alastrampelo mundo nutrem-se dessa desesperança, da absoluta falta de horizontes para grande parte dos povos".Lula cita RooseveltO presidente Lula disse também que o que distingue civilização de bárbarie é a arquitetura política que promove a mudança pacífica e faz avançar a economia e a vida social pelo consenso democrático. "Mede-se uma geração não só pelo que fez mas também pelo que deixou de fazer. Se os recursos disponíveis são fantasticamente superiores às nossas necessidades, como explicar às gerações futuras por que fizemos tão pouco quando tanto nos era permitido? Uma civilização omissa está condenada a murchar como um corpo sem alma", afirmou Lula.Ele citou o famoso New Deal (pacto social econômico idealizado pelo ex-presidente norte-americano Franklin Roosevelt) que, segundo Lula, ainda ecoa com "atualidade inescapável". Nessa parte do discurso ele lembrou algumas frases do New Deal entre elas o seguinte trecho. "O que mais se necessita hoje é de audácia na experimentação. O que mais se deve temer é o próprio medo". Na interpretação de Lula, não se trata da audácia do instinto mas da coragem política. "Sem voluntarismo irresponsável mas com ousadia e capacidade de reformar", afirmou.

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