Lula defende direito do Irã a programa nuclear pacífico

Ahmadinejad retribuiu apoiando o Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU

Tânia Monteiro e Leonencio Nossa, de O Estado de S.Paulo,

23 de novembro de 2009 | 16h22

 

Os presidentes Lula e Ahmadinejad durante encontro bilateral no Itamaraty, em Brasília  

 

SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta segunda-feira, 22, o direito do Irã de manter seu programa nuclear para fins pacíficos, com a ressalva de que Teerã colabore com a busca de uma "solução justa e equilibrada" para o impasse em torno de suas atividades nessa área.

 

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"O que defendemos há muito tempo é que o Irã tenha o direito a um programa nuclear para gerar energia, com pleno respeito aos acordos internacionais", disse o brasileiro durante pronunciamento ao lado de seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

As declarações vão de encontro aos interesses dos Estados Unidos, que acusam o Irã de possuir um programa secreto para a construção de armamentos nucleares. Recentemente, o presidente Barack Obama acusou o Irã de construir uma usina secreta de enriquecimento de urânio.

 

O Brasil tenta intermediar um entendimento sobre a questão nuclear iraniana entre Teerã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Questionado se o esforço não seria inútil, dado que os iranianos não estariam dispostos a fazer concessões, Lula respondeu: "O Brasil não insiste. O Brasil tem um modelo de energia nuclear reconhecido pelas Nações Unidas e pela Agência Internacional de Energia Atômica e avalia que o Irã tem o direito de produzir urânio enriquecido para fins pacíficos como o Brasil desenvolve."

 

O brasileiro relatou que Ahmanidejad lhe apresentou a proposta iraniana de uma política de enriquecimento de urânio em duas oportunidades - em Nova York e em Brasília. "O que defendemos para o Brasil nós defendemos também para os outros países", afirmou.

 

Lula ressaltou, no entanto, a necessidade de se firmarem compromissos conta a proliferação de armas nucleares. "Esse é o caminho que o Brasil vem trilhando em obediência a nossa Constituição, que proíbe a produção e a utilização de armas nucleares". Segundo o presidente, a não proliferação e desarmamento nuclear devem andar juntos. "O Brasil sonha com um Oriente Médio livre de armas nucleares como ocorre com nossa América Latina", disse.

 

Conselho de Segurança

 

Ahmadinejad retribuiu o apoio de Lula pedindo uma reformulação no Conselho de Segurança da ONU. "O Conselho de Segurança deve ser ampliado. Portanto, apoiamos o status permanente do Brasil no órgão", disse o líder iraniano, em referência à ambição do Brasil de integrar o conselho. A declaração vem no momento em que o País assume uma vaga rotativa no órgão.

 

O iraniano criticou ainda o fato de vários países não terem direito a voto no conselho e defendeu a ampliação desse direito a outras nações. Para Ahmadinejad, o conselho fracassou nos últimos 60 anos, em razão do poder de veto, limitado aos Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Isso significa que qualquer um desses cinco países pode anular qualquer proposta apresentando um voto negativo, mesmo que esta tenha sido aprovada por todos os demais.

 

Em discurso de saudação ao presidente do Irã, o brasileiro tratou ainda de temas delicados como direitos humanos e o direito do povo palestino de ter a sua nação ao lado do Estado de Israel. Para o presidente Lula, a integração regional é um dos pilares para que a paz seja alcançada na região.

 

"Reconhecemos que, sem estabilidade e cooperação regional, não haverá paz e prosperidade duradouras", afirmou o presidente.

 

Recado

 

Apesar do clima amistoso entre os dois presidentes, que trocaram abraços ao se encontrarem mais cedo, no Itamaraty, Lula procurou passar a imagem do Brasil como a de um país que não aceita a intolerância e o terrorismo. Segundo o brasileiro, a política externa brasileira "é balizada pelo compromisso com a democracia e o respeito à diversidade".

 

"Defendemos os direitos humanos e a liberdade de escolha de nossos cidadãos e cidadãs com a mesma veemência com que repudiamos todo ato de intolerância ou de recurso ao terrorismo", ponderou. Além de reprimir o homossexualismo, o Irã é acusado pelos Estados Unidos de financiar atividades terroristas.

 

Em um discurso sem nenhum improviso, o presidente Lula lembrou a experiência brasileira de abrigar comunidades árabe e judaica em convivência harmoniosa, que, segundo ele, "desmente o mito de que o Oriente Médio está condenado aos conflitos e sofrimentos que tem vivido por décadas".

 

Ele acrescentou que o Brasil mantém um "diálogo aberto e franco" com todos os países da região. Em seguida, citou que foi com este espírito que recebeu, nos últimos dias, os presidentes de Israel e da Autoridade Palestina. "A Shimon Peres (presidente israelense) e a Mahmoud Abbas (presidente palestino) reiterei a posição brasileira sobre o conflito no Oriente Médio. Defendemos o direito do povo palestino a um Estado viável e a uma vida digna ao lado de um Estado de Israel seguro e soberano. Mas a busca de um entendimento nesse e em outros temas regionais exige a incorporação de novos interlocutores nas negociações genuinamente interessados na paz. Para dialogar, é necessário construir canais de confiança com desprendimento e coragem. São esses mesmos valores e princípios que devem prevalecer na busca de paz no Oriente Médio", disse.

 

Brasil mediador

 

Assim como Abbas, Ahmadinejad defendeu o papel do Brasil como mediador para a paz no Oriente Médio. Para ele, Brasil e Irã desempenham papéis relevantes no cenário internacional e podem ajudar "numa nova ordem mundial humanitária". "Os dois países procuram resolver problemas internacionais e podem colocar um fim a agressões e buscar um mundo sem armas de destruição em massa, em particular, as nucleares", disse.

 

Ahmadinejad, sem citar países, disse que nações em desenvolvimento sofrem humilhações e agressões a suas culturas. "Estruturas culturais não deveriam ser impostas a nossos países. Devemos prestar atenção às tradições culturais nativas. Todos os seres humanos pertencem a uma mesma classe".

 

Ele disse esperar a visita de Lula a Teerã no próximo ano. "A presença do Brasil no Oriente Médio pode levar a um aperfeiçoamento das relações internacionais e pode ajudar na promoção da paz e da estabilidade", ressaltou. Ahmadinejad disse ainda que o Brasil pode atuar como elo entre o Irã e a América Latina.

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