Lula defende adversários históricos

Presidente ?esquece? o que disse e sai em defesa de Sarney, Maluf e até do ex-inimigo Fernando Collor

Ana Paula Scinocca, O Estadao de S.Paulo

18 de julho de 2009 | 00h00

Se o presidente Lula chamasse o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva para um debate sobre a honestidade dos políticos e o papel desempenhado por figuras como José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor, o encontro terminaria mostrando, de maneira insólita, o quanto um diverge do outro. Ou quanto o Lula presidente resolveu adaptar aos tempos atuais tudo o que disse o Lula sindicalista e político da oposição ao longo de duas décadas - anos 80 e 90. O Lula sindicalista denunciaria os "300 picaretas do Congresso", "o grileiro" Sarney e seu patrimonialismo, "a falta de honestidade" de Maluf, além de defender o impeachment de Collor, acusado de comandar um esquema com o ex-tesoureiro PC Farias. Desde que colocou a faixa presidencial, em 2003, Lula passou por uma série de experiências que o fizeram ir além da renúncia ao que disse. O presidente passou a julgar os políticos por critérios especiais, comportando-se com um juiz da história. Para o senador Pedro Simon (PMDB-RS), um aliado de primeira hora do governo Lula, o presidente vive agora uma fase que merece uma reprimenda a la rei de Espanha. "Lula tem 80% de popularidade. Nunca um presidente teve esse índice. O sucesso deve ter subido à sua cabeça, pois só isso pode explicar o bando de bobagens e coisas que ele tem feito. Eu vou repetir o que o rei da Espanha (Juan Carlos) disse ao Hugo Chávez (presidente da Venezuela). Cala-te, cala-te Lula", disse o senador Pedro Simon (PMDB-RS). A governabilidade máxima e a qualquer custo também ajudaria a explicar o comportamento. Para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, pesquisador da PUC-SP e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Lula teve de fazer concessões antes mesmo de chegar à Presidência, o que definiu o estilo camaleônico atual. "O Lula tem defendido pessoas que têm importância em seus postos ou partidos. Tanto o presidente quanto o partido dele, o PT, tiveram que fazer concessões. Só que Lula se adaptou mais rápido a elas", avaliou Teixeira. POLARIDADENa linha "esqueçam o que eu disse", o Lula presidente saiu nos últimos dias em defesa de adversários históricos, que ele tratava como inimigos, e de teses que sempre rejeitara. O Lula de hoje acha o Congresso "a caixa de ressonância da consciência política da sociedade no dia da votação" e as pessoas que lá estão, como o presidente José Sarney (PMDB-AP), a quem em 1986 chamara de "grileiro", de pessoa "com história e incomum". Ao mesmo tempo, como um político acima dos políticos, chamou os senadores de "pizzaiolos". Lula também já "abençoou" Severino Cavalcanti (PP-PE), hoje prefeito de João Alfredo (PE), que se viu obrigado a renunciar ao comando da Câmara e ao mandato, em 2005, acusado de praticar "mensalinho" na Casa. COLLORNa semana passada, em visita a Palmeira dos Índios, em Alagoas, sepultou as divergências com Collor - inclusive o fato de em 1989 o ex-presidente ter levado ao programa de campanha na TV a mãe de uma filha do então adversário fora do casamento -, para sair em defesa do hoje senador. Três anos atrás, com Collor à beira de ser eleito para o Senado, Lula sentenciou: "O que não vai melhorar é se o Collor se eleger senador." Em Palmeira dos Índios, no último dia 14, de microfone na mão, Lula anunciou a mudança. "Quero fazer justiça ao Collor", disse ele. Além da "justiça" a Collor, a quem o presidente elogiou pela sustentação política dada ao governo petista, Lula comparou o ex-presidente alagoano ao também ex-presidente Juscelino Kubitschek. Com popularidade em alta, Lula diz o que quer, se contradiz, e não derrete sua gordura eleitoral. Pelo contrário. Até aqui, segundo pesquisas, ele está na condição de maior cabo eleitoral da próxima eleição, no ano que vem.

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