Lula cospe no prato em que comeu, diz d. Luiz Cappio

Recuperado da greve de fome, bispo ataca posicionamento do presidente

Clarissa Oliveira, O Estadao de S.Paulo

21 Janeiro 2008 | 00h00

Recuperado da greve de fome de 24 dias realizada em Sobradinho (BA) no fim do ano passado, o bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, afirmou ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "cospe no prato em que comeu" e dá as costas aos movimentos sociais, ao se negar mais uma vez a abrir o diálogo sobre as obras de transposição do Rio São Francisco."Na hora em que os movimentos sociais conseguiram colocá-lo lá onde ele está, na hora em que ele alcançou o poder, ele dá as costas aos movimentos sociais, esquece os movimentos sociais. Eu diria que ele cospe no prato em que comeu", disse o bispo, em entrevista durante uma visita a São Paulo, onde celebrou uma missa em homenagem a migrantes baianos. "Quando precisou dos movimentos sociais para se eleger, se elegeu. Uma vez lá, só governa o Brasil para as elites."Ao comparar o presidente a Pôncio Pilatos, d. Luiz disse que Lula "lavou as mãos" e decidiu em favor de interesses industriais. "Eu fui para Sobradinho na esperança de encontrar com ele. Mas ele não quis papo comigo, não", prosseguiu o bispo. Ele disse ainda que, se fosse conselheiro de Lula, lembraria o presidente de sua origem nordestina. "Eu diria: ?Meu irmão, volte a ser nordestino, volte a ser pernambucano, volte a ser um migrante. Porque, quando você era tudo isso, você era povo?", afirmou d. Luiz, que também acusou o governo de "bloquear" o acesso da mídia à campanha contra a transposição. D. Luiz aproveitou para criticar o programa Bolsa-Família. "Bolsa-Família não é valorizar e reconhecer o povo como cidadão. É dar uma esmola", disse. Questionado se seria um jeito de comprar votos, o bispo emendou: "Sem dúvida."POLÍTICA Realizada anualmente na Igreja São Judas, na zona sul da capital, a missa em homenagem aos migrantes baianos é celebrada há 18 anos pelo próprio d. Luiz. Desta vez, entretanto, o tom político dominou a cerimônia. O bispo lembrou da greve de fome e agradeceu a solidariedade dos fiéis. Disse ter chegado "bem pertinho de São Pedro" ao final do jejum. "Ele falou: você, aqui, de jeito nenhum", disse o religioso, para milhares de fiéis que participaram do culto. Até mesmo o candidato derrotado ao governo de São Paulo na última eleição, Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), teve a oportunidade de discursar no altar e elogiar o bispo: "O que ele pediu foi que o presidente da República, nosso companheiro Lula, em quem votamos, desse uma oportunidade ao povo brasileiro, para que soubesse das conseqüências do projeto."D. Luiz negou qualquer contradição entre o tema tradicional da missa e os discursos contra a transposição. "Nós respondemos à grande expectativa que todo esse povo tem de uma luta de libertação."

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