Lula: 'Comecei a endividar' programa de moradia de Dilma

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou hoje que já começou a "endividar" a fase do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida a ser conduzida pela presidente eleita, Dilma Rousseff. As contratações do programa somam 1,003 milhão de unidades, acima da meta de um milhão de unidades.

CHIARA QUINTÃO, Agência Estado

29 Dezembro 2010 | 20h50

"Já comecei a endividar o programa da Dilma. Como a Dilma é minha companheira, vou pegar um pouco das casas dela para a faixa de zero a três salários mínimos", disse. A segunda etapa do Minha Casa, Minha Vida tem como meta a contratação de dois milhões de moradias.

"Alguns companheiros dos meios de comunicação disseram, nas últimas semanas, que a gente não ia conseguir fazer o contrato de um milhão de casas. Provavelmente, algumas pessoas estavam acostumadas com alguns governos que ficavam sentados com a bunda na cadeira e não cobravam as pessoas o que tinham que cobrar", disse Lula.

O presidente elogiou o trabalho da presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Maria Fernanda Coelho, e do vice-presidente de Governo do banco, Jorge Hereda, mas deixou claro que fez cobranças quando necessário. "Quantas reuniões, quantas brigas, quantos xingamentos o companheiro Hereda recebeu da minha parte."

Lula ressaltou que não disse que a meta de um milhão de unidades contratadas seria cumprida numa data específica. "Mas queria terminar o meu mandato com maior número de contratos já feitos pela Caixa e subsidiados pelo governo da República. Os que duvidavam que nunca mais ousem duvidar da capacidade dos trabalhadores brasileiros, da Caixa e do governo", afirmou.

Segundo o presidente, a escolha de Salvador para sediar o ato que coordenou entregas, lançamentos e assinaturas de contratos de imóveis do Minha Casa, Minha Vida teve como um dos motivos o fato de a Bahia ter sido o Estado que mais contratou unidades nos moldes do programa habitacional no total e na faixa de zero a três salários mínimos.

Uma das críticas feitas pela sociedade brasileira ao Minha Casa, Minha Vida refere-se ao tamanho das unidades. Durante seu pronunciamento, Lula comentou que sua primeira casa, comprada em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, em 1976, tinha 33 metros quadrados, onde vivia com sua esposa, Marisa Letícia, com três filhos e sua sogra.

Em seguida, brincou que eram, na verdade, duas sogras, pois ficou próximo da mãe do primeiro marido de Marisa. "Eu sou o único brasileiro que adotei uma sogra."

Última viagem

Lula afirmou que esta foi sua última viagem como presidente do Brasil, mas não o último ato oficial, pois tem uma agenda a cumprir amanhã. "No sábado, depois que eu passar a faixa para Dilma, viajo para São Bernardo. Espero ser convidado para passar férias na Bahia", disse. "Lulinha vai arrasar no carnaval, vai ser o Lulinha 2011", acrescentou.

A intenção é comer feijoada, acarajé e moqueca com dendê quando regressar à Bahia. "Quero ir com Jaques Wagner (governador reeleito no Estado) a uma bela praia, passando uns três dias olhando o dedão do pé", contou.

O presidente agradeceu ao povo brasileiro, com quem dividiu o mérito da popularidade de seu governo. "É com muito orgulho que vamos terminar o mandato com 87% de bom e ótimo. Isso possivelmente não é mérito meu, mas da grandeza de cada um de vocês que soube acreditar, confiar."

Segundo Lula, o Brasil deu exemplo ao mundo ao votar em um torneiro mecânico. "Eu sabia que não podia fracassar, pois a classe trabalhadora nunca mais ia eleger um operário, assim como a Dilma sabe que não pode fracassar. Vamos apoiar a companheira Dilma. Ela vai precisar de toda a força", pediu.

''Desconsertos''

Lula disse deixar a Presidência "consciente de que fizemos muita coisa pelo Brasil, mas que ainda há muita coisa para fazer". A avaliação é de que são necessárias algumas gerações para consertar os "desconsertos" que foram feitos no País.

"Um companheiro que representa os sem-teto jamais entraria no Palácio (do Planalto) se não fôssemos nós. Eu sou presidente da República, mas sei de onde eu vim. Um palácio tem que receber catadores de papel, deficientes físicos. Não valeria a pena ser presidente se vocês não continuassem me chamando de companheiro", disse.

Lula ressaltou que os trabalhadores não são "mais burros" que a elite, assim como não pretendem ser "mais inteligentes". "Queremos ter os mesmos direitos. Não sei quem foi o malandro que inventou que pobre não gosta de coisa boa. Pobre gosta de luxo. Inventaram até que pobre não gosta de uísque, só de cachaça."

O presidente ressaltou que não se mede a qualidade das pessoas pela quantidade de dinheiro, mas pelo caráter e pela educação recebida de berço. "Nisso, pobre não deve nada a ninguém nesse País."

O presidente destacou que "valeu à pena" provar que a inteligência não está definida pelo número de anos que a pessoa passa na universidade. "A inteligência de decidir é uma mistura da nossa massa encefálica com o nosso coração. Isso nós temos que ensinar e não que aprender."

Crise

Lula afirmou que foi "gostoso" terminar seu mandato vendo os Estados Unidos, a Europa e o Japão em crise, considerando que "eles sabiam tudo para resolver o problema da crise do Brasil, da Bolívia e do México". "Não foi nenhum doutor, foi um torneiro mecânico com sua equipe econômica que conseguiu fazer a crise demorar mais para chegar até aqui", disse.

Dirigindo-se à população, afirmou: "Vocês se sentem o Lula na Presidência desse País, com virtudes e com defeitos. Disseram que era difícil governar. É difícil quando você quer governar para uma minoria, mas é fácil quando você quer governar para todos. Vou terminar como o presidente que mais construiu universidades, escolas públicas, mais investiu em ciência e tecnologia".

Lula citou também a criação de 15 milhões de empregos com carteira assinada. Afirmou ainda que é importante agradecer "cada dia de vida".

Ele citou que o Nordeste, que só aparecia no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como região com mais problemas de desnutrição, já responde por 10% dos doutores formados no Brasil. "Não queremos tirar nada de nenhum Estado. O que queremos é não ser mais tratados como região destinada ao subdesenvolvimento", disse.

"O nordestino não tem vergonha de ser pedreiro, mas queremos também ser engenheiros." Lula afirmou ainda que tem orgulho de ser um presidente que nunca teve vergonha de andar com empresários brasileiros pelo mundo afora.

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