Lula começa viagem à África em ato ao lado de ditador

Em visita a quatro países, presidente discutirá biocombustível e saúde

Leonêncio Nossa, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2007 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia hoje sua sétima viagem à África sendo recebido às 8 horas da manhã (6 horas em Brasília), na capital de Burkina Faso, pelo capitão Blaise Campaoré. Vai participar das comemorações dos 20 anos da ditadura no país, iniciados em15 de outubro de 1987 - ano em que Campaoré comandou um golpe que resultou no assassinato do então presidente marxista, Thomas Sankara. Assessores e diplomatas do governo brasileiro tentaram desvincular a visita de Lula à festa promovida pelo ditador, mas a propaganda oficial do país africano foi bem ostensiva, ontem, nas ruas e hotéis da capital. A imagem de Campaoré, com a inscrição "20 anos de Justiça e Democracia", estava nos vestidos de modelos contratadas pelo governo local e em cartazes gigantes espalhados pelas principais vias de acesso ao centro da cidade. Em muros da periferia, outros cartazes colados por opositores lembravam o assassinato de Sankara e convidavam para um seminário sobre o sistema político que o ex-presidente tentou implantar, de forte oposição ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial. O presidente brasileiro é o mais ilustre convidado da festa do golpe, que pôs fim à aventura marxista e sindical de Sankara num dos países mais pobres do continente. Hoje, Burkina Faso sobrevive da lavoura de algodão e tenta atrair investidores externos para suas minas de manganês, ouro e prata. Às 10 horas, Lula e Campaoré se reúnem com empresários dos dois países e em seguida participam do colóquio Democracia e Desenvolvimento na África. Campaoré se define como um líder "democrático" e "aberto ao diálogo". Desde a independência da França em 1960, o país - conhecido no passado como Alto Volta - passou por cinco golpes de Estado, com uma série de assassinatos de líderes da oposição. A festa será encerrada, à tarde, com a abertura da Semana do Cinema Brasileiro, uma mostra de filmes como Pelé Eterno, Cafundó, Macunaíma, Quase Dois Irmãos e Atlântico Negro.Às 16h30, Lula segue para Brazzaville, capital da República do Congo. A viagem se completará, até quinta-feira, com as visitas à África do Sul e a Angola. Com esse giro, o presidente terá visitado 19 dos 53 países africanos. Em Brazzaville, Lula é esperado pelo coronel Denis Sassou-Nguesso, líder de uma ditadura militar de dez anos. Na quarta-feira, participará em Johannesburgo, na África do Sul, do II Fórum Ibas, encontro de chefes de Estado do Brasil, África do Sul e Índia. A quarta visita será a Angola, onde José Eduardo dos Santos está no poder desde 1979.DESAFIO CHINÊSOs diplomatas do Itamaraty afirmam que a presença de Lula nos países africanos facilita os negócios das empresas brasileiras, num mercado emergente onde é cada vez mais forte a presença da China. O país asiático é hoje o terceiro maior parceiro comercial dos africanos, atrás apenas de Estados Unidos e França. Até 2009, a China pretende repassar US$ 40 bilhões apenas em empréstimos e ajuda financeira para boa parte das 53 nações africanas.As empresas chinesas, como as brasileiras Petrobrás e Vale do Rio Doce, também estão de olho nas reservas minerais do continente. E, como o Brasil, a China mobiliza o seu presidente, Hu Jintao, que em novembro do ano passado conseguiu reunir em um encontro oficial em Pequim 48 representantes dos países africanos para discutir as relações bilaterais.EMPRÉSTIMOSOs números do Ministério da Indústria e Comércio mostram que rendem dinheiro as viagens de Lula à África, um continente onde o presidente costuma fazer discursos emotivos e falar da história dos escravos. Só no caso de Angola, o governo destaca que as exportações passaram de US$ 235 milhões em 2003 para US$ 836 milhões no ano passado. Também aumentaram as exportações para África do Sul (US$ 733 milhões para US$ 1,45 bilhão no mesmo período) e Congo (US$ 13,3 milhões para US$ 34,1 milhões). "Não se trata de uma questão de competição com os chineses", diz o embaixador Roberto Jaguaribe. "A África é uma região fundamental e prioritária para nós", acrescenta. O presidente planeja novas visitas ao continente africano em 2008, 2009 e 2010.

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