Lula cobra ‘agenda positiva’ de Dilma

Em evento do PT paulistano, ex-presidente fala pela primeira vez em público que sucessora precisa explicitar ações do segundo mandato

Ricardo Galhardo e Elizabeth Lopes, O Estado de S. Paulo

24 Abril 2015 | 23h14

SÃO PAULO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou pela primeira vez publicamente, nesta sexta-feira, 24, em um encontro com petistas de São Paulo, que a presidente Dilma Rousseff, sua sucessora, crie fatos positivos em seu governo de forma a abrir uma saída para a crise política que se arrasta desde a posse, em 1.º de janeiro.


“Nós temos de dizer em alto e bom som dentro do PT, para a companheira Dilma ouvir e para os nossos deputados e militantes ouvirem, que nós precisamos começar a dizer o que nós vamos fazer neste segundo mandato, qual é a política de desenvolvimento que nós vamos colocar em prática, qual é o tipo de indústria que nós vamos incentivar”, disse Lula, em um discurso inflamado de mais de 40 minutos, durante a abertura do 3.º Congresso das Direções Zonais do PT São Paulo, na noite de desta sexta na capital.


Em conversas fechadas o ex-presidente tem adotado há algumas semanas o mesmo discurso, com palavras mais diretas. Nestas conversas ele diz que Dilma não pode concentrar os esforços apenas na área econômica e que o governo “precisa governar” para criar notícias positivas que ajudem a reverter o “mau humor” da população.


Tema único. Nesta sexta, Lula reclamou de que o único tema nos últimos cinco meses é o ajuste fiscal. Segundo ele, é preciso dar um assunto aos petistas para que eles possam contrapor, “na mesa do bar”, as críticas ao partido e ao governo.


Além das cobranças, Lula conclamou os militantes presentes a defender Dilma. “Nem o PT sobrevive sem a Dilma nem a Dilma sobrevive sem o PT. Temos que ser unha e carne. Se Dilma fracassar é o PT quem fracassa e, se o PT fracassar, a gente vai contribuir para o fracasso da Dilma. E eu não vim ao mundo para fracassar.”


Disse ainda que, se Dilma está encontrando dificuldades, não é para o partido se afastar. “Temos de chegar juntos e empurrar para que ela continue sendo a Dilma que nós elegemos presidente da República.”


Preocupação. Ao falar sobre o segundo mandato de sua afilhada política, Lula destacou: “Precisamos dizer ao povo porque quisemos o segundo mandato de Dilma. Eu sempre tive preocupação com segundo mandato, porque segundo mandato é como segundo casamento, tem que ser melhor que o primeiro.” E ponderou: “Ninguém pode duvidar da dignidade e caráter da companheira Dilma, comprometida com o povo e com a classe trabalhadora deste país”.


Lula também endereçou uma cobrança ao PT. “O PT precisa errar menos. O PT não pode fazer aquilo que é criticado nos outros, tem que ser exemplo”, defendeu o ex-presidente. E lembrou da construção do partido, quando se vendia esperança e “utopia”. “O PT nunca teve nada de graça. E construímos coisas que nenhum sociólogo poderia imaginar que faríamos." Para Lula, era mais fácil fazer política quando o partido era oposição e pequenino.


Defesa do tesoureiro. No discurso, Lula também cobrou dos militantes a defesa do ex-tesoureiro da legenda João Vaccari Neto, que continua preso, dizendo que o PT tem que defender não apenas o Vaccari, mas o próprio partido. E disse que ninguém pediu desculpar à cunhada de Vaccari, Marice Correa de Lima, que foi presa e depois solta por dúvidas se ela era mesmo quem aparecia no vídeo.

"O PT precisa defender não apenas o Vaccari, mas também o PT das acusações que ele está sendo vítima. Defender os companheiros até que se prove o contrário."


Ao elogiar a decisão da direção do PT em não aceitar mais recursos de empresas privadas, Lula disse parece que o dinheiro do PT é amaldiçoado e o dos outros é abençoado, parece que a campanha dos outros foi feita com dízimos, vendendo churrasco nas quermesses. E voltou a citar o ex-tesoureiro: "Será que o Vaccari pegou dinheiro escrito propina ou a mesma nota que os outros pegaram?"

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