Lula chega a Washington

Acompanhado por uma delegação de dez ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou no início da noite a Washington para uma visita de trabalho de 27 horas que pode tanto marcar o início de um período de aprofundamento das relações entre o Brasil e os Estados Unidos como frustrar as expectativas que inevitavelmente criará. O encontro de mais de duas horas que Lula terá hoje com o presidente George W. Bush é significativo por várias razões. Ele reune dois políticos que são ideologicamente opostos mas tem conduzido o diálogo bilateral com grande pragmatismo. Lula é o primeiro líder de um país que não apoiou os Estados Unidos na recente invasão do Iraque a ser recebido na Casa Branca. Além disso, o formato do encontro é inédito nas relações entre os dois países: além da conversa reservada de meia hora no Salão Oval, os dois presidentes terão uma reunião com membros de seus respectivos gabinetes e almocarão juntos. Embora não estejam prevista uma entrevista coletiva dos dois líderes, o ritual está sendo tratado pelos dois governos como um reunião de "cúpula", que é simbolicamente importante pois sinaliza o desejo do governo americano de diferenciar o encontro e reconhecer o papel do Brasil de líder regional, uma antiga ambição da política externa brasileira. "Esta é uma visita muito importante", afirmou ontem a embaixadora americana no Brasil, Donna Hrinak, que foi e continua a ser figura-chave na decisão que Washington tomou, no ano passado, de buscar um engajamento com Lula. "Potencialmente, as relações entre os EUA e o Brasil estão a ponto de mover-se para um nível diferente, (...) nas qual interações de alto nível tornem-ser a norma, em lugar de ser a exceção", reforçou o embaixador Richard Haass, na semana passada, antes de deixar cargo de diretor de planejamento estratégico do Departamento de Estado pelo não menos influente postos de presidente do Council of Foreign Relations. Uma dado estranho da visita, no entanto, é a ausência na agenda do presidente de qualquer compromisso público, que sugere a falta de apetite do Planalto para falar a platéias americanas, ampliar o leque de interlocutores do País nos EUA , explicar as políticas de seu e definir sua visão do relacionamento bilateral e o que espera dele. Hrinak afirmou que o encontro de presidentes e ministros "não será uma cúpula sobre a ALCA", referindo-se ao projeto de criação da Área de Livre Comércio das Américas até janeiro de 2005, que é meta prioritária de Washington no hemisfério, mas não necessariamente de Brasilia. O ministro do comércio exterior dos EUA, Robert Zoellick, e o secretário de Estado, Colin Powell, não participarão dos encontros, pois estão em viagem ao exterior. Lula e Bush devem divulgar uma declaração conjunta, ao final da reunião, identificando as áreas que consideram prioritárias para a cooperação. Paralelamente, serão firmados cinco acordos de cooperação entre os dois países. Um deles criará um "grupo para o crescimento" e formalizará consultas regulares sobre política econômica a nível do sub-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, John Taylor,e o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Otaviano Canuto. Será criado um grupo consultivo entre os ministério de Agricultura dos dois países. Os dois governos firmarão também um acordo de cooperação em política de energia nuclear, na área do ministério da Ciência e Tecnologia. Ainda no setor energético, a ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef, deve assinar ficará em Washington, a convite de colega americano Spencer Abraham, para participar da primeira reunião de um foro sobre o desenvolvimento de tecnologias de seqüestro de carbono. Na área da saúde, Brasil e Estados Unidos assinarão um acordo que estenderá a cooperação a um terceiro país, Moçambinque, em ações de combate à Aids.

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