Lula ataca oligarquias, mas poupa Sarney

Presidente se irrita ao ser indagado sobre hegemonia do clã no Maranhão

Leonencio Nossa, São Salvador, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2009 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliou que não ficará refém do PMDB nos últimos dois anos de governo. Em viagem ao sul do Tocantins, ele chamou os novos presidentes da Câmara, Michel Temer (SP), e do Senado, José Sarney (AP), de "parceiros" e reconheceu que não é possível governar sem as oligarquias. "Acho que eles dão muita tranquilidade, não ao presidente da República, mas ao País", afirmou. "São duas pessoas que pela terceira vez vão fazer a governança no Senado e na Câmara, portanto, têm muita experiência e responsabilidade." Ao inaugurar a hidrelétrica de São Salvador, a 420 quilômetros de Palmas, ele alternou momentos de críticas e de defesa das oligarquias.Em discurso, reclamou, sem citar nomes, que oligarquias nordestinas atrapalharam obras importantes ao longo da história para a população do semiárido. Depois, em entrevista, um repórter perguntou sobre o que ele achava da oligarquia de Sarney no Maranhão. O presidente se irritou. "Quem está dizendo que o Sarney é oligarca é você, não sou eu", reagiu. "O que eu disse (no discurso) é que historicamente a oligarquia do País que mandou por vários séculos não permitia que se fizesse uma obra como a interligação de bacias do São Francisco, e nós estamos fazendo sem nenhum problema. Apenas mostrei a diferença do comportamento que mandava no Brasil com a elite que hoje é favorável a que a gente construa a obra." Na entrevista, Lula, porém, admitiu que não é possível governar sem o apoio das oligarquias. Indagado se era possível governar sem alianças com oligarquias, ele respondeu: "Não, tanto que eu tenho uma parceria extraordinária com os empresários brasileiros. Acho que é uma relação de respeito, uma relação digna." E concluiu: "Agora, todos nós na vida, seja o trabalhador ou o oligarca, cada um tem momento de pensar coisas diferentes, e eu acho que tivemos momentos de muito retrocesso no Brasil pelo comportamento de uma oligarquia que no século passado não via com uma visão de futuro o nosso país."RETROSPECTIVAAinda na conversa com os jornalistas, Lula fez uma retrospectiva da relação de seu governo com o PMDB. O partido conta com as pastas de Saúde, Integração, Agricultura, Defesa, Comunicações e Minas e Energia.Só não fez referências ao espaço ocupado pelo grupo de Sarney na máquina pública. O presidente do Senado tem um aliado no comando de Minas e Energia (Edison Lobão) e uma série de apadrinhados em cargos de segundo escalão e órgãos federais no Nordeste. Ao menos em público, o senador e o presidente nunca se atacaram nos seis anos do atual governo, nem mesmo quando, no ano passado, a Polícia Federal mirou nos negócios da família Sarney no Maranhão. "A minha relação com o PMDB tem sido a melhor possível", avaliou Lula, que considera fundamental a manutenção da aliança com o partido para a disputa presidencial de 2010. FRASELuiz Inácio Lula da SilvaPresidente"Todos nós na vida, seja o trabalhador ou o oligarca, cada um tem momento de pensar coisas diferentes, e eu acho que tivemos momentos de muito retrocesso no Brasil pelo comportamento de uma oligarquia que no século passado não via com uma visão de futuro onosso país"

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