Antonio Cruz/ABR
Antonio Cruz/ABR

Lula ataca mídia e dá mais 4 anos a Dilma

Ex-presidente sugere a reeleição da petista e diz que imprensa desconhece realidade do governo; Planalto não endossa teor das críticas

Rubens Santos, especial para O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2011 | 23h00

GOIÂNIA - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu na quinta-feira, 15, a gestão de sua sucessora, Dilma Rousseff, e chegou a sugerir que a presidente concorra à reeleição em 2014. Como de costume, Lula também criticou a imprensa e afirmou que a oposição trabalha pelo fracasso da atual gestão.

 

As declarações foram feitas durante evento da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Goiânia. Lula negou ter divergências com Dilma. Ele preferiu imputar à imprensa uma suposta discórdia entre eles: "Saí há seis meses do governo e eles (a imprensa) não saem do meu pé", afirmou. "Primeiro, eles tentaram mostrar uma divergência entre eu e a Dilma. Não precisa ser nenhum especialista para saber qual a diferença. Depois perceberam que não havia divergência", disse, arrancando risos da plateia.

 

"Quando fui a Brasília para tirar fotos com os senadores, disseram que ela (Dilma) era fraca", afirmou. "E o babaca que escreveu isso, se já tivesse sentado com a Dilma por dez minutos, iria saber que ela pode ter todos os defeitos do mundo, menos ser fraca."

 

O ex-presidente também criticou a imprensa por divulgar informações sobre o patrocínio da Petrobrás, no valor de R$ 4 milhões, ao evento dos estudantes: "Aquele jornal (O Globo), de caráter nacional, não sai do Rio de Janeiro", disse Lula. "Vai na baixada Fluminense que você não acha ele", ironizou. "E os grandes (jornais) de São Paulo quase não chegam no ABC."

 

À vontade, Lula evitou temas espinhosos, como a denúncia do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, apresentada ao Supremo na semana passada e segundo a qual o mensalão, escândalo da gestão do ex-presidente, foi uma atentado à democracia brasileira.

 

Sobre a performance de Dilma, ele afirmou: "A presidente vai fazer mais e melhor do que nós fizemos. Ela vai inaugurar até o final do mandato, digo, deste primeiro mandato, obviamente, mais 200 escolas técnicas".

 

Durante o encontro dos estudantes, Lula disse estar sentindo a ausência do ex-vice-presidente José Alencar, morto neste ano, e da presidenta Dilma ao seu lado no evento: "Acho que foi um equívoco (ela não estar presente)", disse ele. "A gente ia dizer: nunca antes na história do Brasil uma presidenta, mulher, tinha participado de um encontro da UNE."

 

Além de participar do congresso da UNE, Lula se reuniu com dirigentes do PT e do PMDB goiano para ampliar uma parceria visando às disputas eleitorais pela Prefeitura de Goiânia, no ano que vem.

 

Oposição. Sobre a atuação da oposição, o ex-presidente rebateu críticas e novamente foi ao ataque. "Estão torcendo para a inflação voltar", disse.

 

Para Lula, seu governo deixou uma "herança bendita". "Chegou a se falar em herança maldita", disse. "É que eles (a imprensa) não reconhecem que o povo não quer mais intermediário entre eles e a informação."

 

Segundo Lula, os questionamentos sobre seu legado além de não serem reais estão permeados de preconceitos sociais. "Os que governam para um terço da população estão incomodados em ver os pobres andando de avião", criticou. "Tem gente que se incomoda vendo pobre andando de carro novo porque eles adoram ver um pobre andando de Brasília, ou de Chevette com o para-choque arrastando. Essa gente não está acostumada a ver um progresso."

 

Afirmações como essas levantaram a plateia. O ex-presidente começou o discurso confessando-se "apaixonado" por microfones. "Não via a hora de falar perto de um microfone outra vez", disse. "Há quanto tempo não faço um discursinho."

 

Mudança de tom. Para auxiliares diretos da presidente Dilma, as declarações de Lula contra a imprensa não têm o mesmo tom e teor dos discursos públicos que o Planalto vem mantendo hoje. Em seus pronunciamentos em Brasília e nas viagens pelo País, Dilma faz questão de cumprimentar os "senhores e as senhoras jornalistas".

 

Um ministro do atual governo e que também participou da gestão Lula disse ao Estado que o Planalto "comemora" o clima de "distensão" que Dilma conseguiu estabelecer na relação com a imprensa e mesmo a oposição. "O mais importante é que esse novo clima é bom para o governo e o País", afirmou a fonte.

 

Durante as duas principais crises políticas do governo, que resultaram nas demissões dos ministros Antonio Palocci (Casa Civil) e Alfredo Nascimento (Transportes), Dilma não culpou jornalistas pelos problemas. Em seu governo, Lula usava a estratégia de criticar a imprensa para reduzir o impacto das crises e apostava nos discursos inflamados para solucionar os impasses.

 

Embora faça discursos carregados de gentileza, a presidente, porém, dá demonstrações claras de não aturar o trabalho dos repórteres que cobrem o governo, observam auxiliares diretos. Ela não costuma, por exemplo, conversar com os jornalistas.

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