Lula anuncia fim da reforma e volta a defender coalizão

O presidente Lula deu por concluída a reforma ministerial, ontem, em entrevista no Recife. Ao comentar o novo formato do ministério, disse que alguns ministros saíram porque queriam sair - caso de Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento Econômico - enquanto outros ele remanejou "porque estava na hora". "Estamos construindo uma coalizão importante, que é um outro exemplo de consolidação de um novo tipo de fazer política no Brasil"."Estou convencido de que depois que aprovamos o PAC (Pacote de Aceleração de Crescimento), depois que apresentamos o programa de educação e agora que vamos apresentar políticas sociais e de segurança, vamos ter um conjunto de obras para serem cumpridas em quatro anos e que vai dar ao Brasil uma sustentabilidade que o País não tinha e que nunca foi pensada dessa forma".Sua orientação para o novo ministério é a de que todos terão de trabalhar em função desse programa. "As obras já estão determinadas, sua importância já está detectada e se todo mundo cumprir o organograma, vamos concluir o mandato fazendo o que o Brasil precisa".Entusiasmado, o presidente disse querer pensar o Brasil até 2022, quando se completam 200 anos de independência. Isso seria feito através da Secretaria de Planejamento Estratégico. "Precisamos definir agora o que queremos ter daqui a 15 anos, é um tempo bom de planejamento", afirmou ele. "Precisamos determinar quais obras serão importantes para o Brasil independentemente de quem for presidente da República"."O fato concreto é que tem obras, rodovias, portos, investimento em informática, são coisas que precisam ser projetadas para o longo prazo", frisou, ao reafirmar a intenção de cumprir o compromisso assumido de chegar até 2010 com banda larga em todos os municípios. A meta é chegar ao final desse ano com banda larga em todas as escolas de ensino médio do País."Quando chegar às escolas públicas do ensino fundamental, o Brasil estará apto a ser um País desenvolvido", anteviu Lula na única entrevista à imprensa concedida na sua terceira viagem a Pernambuco neste ano.Ele falou com os jornalistas pela manhã, ao deixar o hotel onde se hospedou, em Boa Viagem, zona sul do Recife, com destino a Olinda, onde participou da formatura de 4,2 mil jovens que concluíram o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem), em um espaço destinado a shows. O programa de inclusão social atende a pessoas de 18 a 24 anos que terminaram a quarta série, mas não concluíram o ensino fundamental, e não têm emprego com carteira assinada. Inclui aulas do ensino fundamental, informática básica e língua inglesa, tem duração de um ano e dá uma bolsa mensal de R$ 100,00.Novos ministros empossadosCom a posse de cinco novos ministros na quinta-feira, 29, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concluiu a montagem do governo de coalizão apoiado por 11 partidos políticos. Com 12 alterações, a nova equipe se reúne pela primeira vez na próxima segunda-feira. Lula confirmou no cargo o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, disse uma fonte do Planalto, encerrando quatro meses de negociações da reforma. Em relação ao primeiro governo, a reforma tem três diferenças: Lula incluiu antigos adversários, nomeou ou manteve técnicos para áreas estratégicas e deslocou o PT do centro da articulação política. O PT mantém 18 filiados no comando de ministérios, secretarias especiais e estruturas como Advocacia Geral e Controladoria-Geral, mas perde a importante secretaria de Relações Institucionais para Walfrido Mares Guia, do PTB. O PMDB tem cinco ministros de alas diversas. PP, PR, PSB, PCdoB, PDT e PV têm um ministro cada. O vice José Alencar é do PRB. Quatro ministros não são filiados a partidos (Celso Amorim, general Jorge Félix, Miguel Jorge e Franklin Martins). Os novos ministros da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e da Agricultura, Reinhold Stephanes, ambos do PMDB, e o ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), foram adversários do PT em eleições passadas e críticos do governo Lula até recentemente. Resistir à pressão"Coalizão pressupõe uma grandeza capaz de absorver pessoas que até ontem falavam mal de você. Quem tem de ter grandeza não é quem perde, é quem ganha a eleição", disse Lula na cerimônia da quinta-feira. Lula resistiu a pressões do PT para nomear a ex-prefeita Marta Suplicy no Ministério da Educação, onde manteve o economista Fernando Haddad. Também negou a Saúde aos deputados do PMDB, nomeando o médico José Gomes Temporão, que se filiou ao partido por recomendação do presidente. "Com Educação e Saúde a gente não pode brincar", disse Lula no início do mês, no lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação. No Ministério do Desenvolvimento Social, manteve o petista Patrus Ananias, a quem atribui a consolidação do programa Bolsa Família. Depois de preservar o tripé da Economia (Guido Mantega, Henrique Meirelles e Paulo Bernardo), Lula reforçou o papel da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), coordenadora do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Especialistas mantidosMinistros e dirigentes de estatais que participaram da elaboração do PAC foram mantidos (Minas e Energia, Cidades, Caixa Econômica, Petrobras, Banco do Brasil, entre outros). Paulo Passos permanece nos Transportes, como secretário-geral do ministro Alfredo Nascimento, a quem substituiu por um ano. Pedro Britto, que cedeu Integração Nacional a Geddel Vieira, vai para a nova Secretaria de Portos. Um auxiliar direto do presidente disse que Lula preservou os "especialistas" para garantir que o segundo mandato terá "um sentido estratégico, voltado para o crescimento da economia e avanço das políticas sociais". A nomeação do jornalista Franklin Martins para a nova Secretaria de Comunicação Social também está relacionada ao perfil de "especialista" num dos setores mais fragilizados no primeiro governo Lula, segundo este auxiliar. Também se incluem entre os "especialistas" os ministros da Cultura, Gilberto Gil (PV), e de Meio Ambiente, Marina Silva (PT), ambos mantidos. Lula tem a mesma expectativa em relação ao executivo Miguel Jorge, empossado nesta quinta no lugar de Luiz Fernando Furlan, que deixa o Desenvolvimento. Trabalho e PrevidênciaO deslocamento do ministro Luiz Marinho do Trabalho para a Previdência foi o último, mais surpreendente e mais complicado lance da reforma. O Trabalho era "território político" da CUT, a central fundada por Lula nos anos 1980. O PDT do novo ministro Carlos Lupi tem ligações políticas com a Força Sindical, rival da CUT. Dirigentes da CUT e mais cinco centrais aliadas tentaram, sem sucesso, reverter a mudança num encontro com Lula na noite da última quarta-feira. O PT de Santa Catarina tenta devolver a Secretaria da Pesca ao ex-ministro José Fritsh, candidato derrotado ao governo do Estado. Lula deve manter o ministro Altemir Gregolim. "O presidente Lula já montou um ministério representativo da coalizão e é muito pouco provável que faça alguma outra mudança", disse à Reuters o presidente do PT, Ricardo Berzoini.Texto ampliado às 17h13

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