Lula afirma que Fidel está com ''''saúde impecável''''

Brasileiro tem encontro de mais de duas horas com líder cubano, que está afastado do governo há um ano e meio

Vera Rosa, HAVANA, O Estadao de S.Paulo

16 de janeiro de 2008 | 00h00

Quase 5 anos depois de sua última visita a Havana, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reencontrou-se ontem com o presidente Fidel Castro, afastado do governo há um ano e meio por motivos de saúde. Lula não escondeu a emoção e disse que ele está pronto para reassumir o cargo. "Eu penso que Fidel está pronto para assumir o papel político que ele tem em Cuba e que tem na história, no mundo globalizado", afirmou, ao voltar do encontro.Lula contou que conversou duas horas e meia com Fidel Castro sobre todos os assuntos possíveis. "É um homem que está com uma lucidez incrível, uma saúde impecável. Se um dia eu ficar doente, quero ter a mesma capacidade de falar que teve o Fidel comigo, porque nessas duas horas e meia em que conversamos Fidel falou duas horas e eu falei meia", brincou.A reunião foi cercada de mistério e só ocorreu no fim do dia, menos de três horas antes de Lula voltar ao Brasil. Ele saiu às 16h40 junto com o chefe da segurança do Planalto, general Gonçalves Dias, e o médico da Presidência, Cléber Ferreira. Um comboio de cubanos os acompanhou no trajeto até o local onde o presidente cubano se encontra, que é mantido em sigilo.Na volta, já no Aeroporto José Martí, em Havana, de onde embarcou para o Brasil, Lula deu a entrevista sobre o encontro. Emocionado, disse que Fidel está bem de saúde. "Logo, logo ele vai se recuperar fisicamente. Porque o político é como um atleta: se passa algum tempo sem fazer exercício precisa fazer esforço maior para se recuperar." Em seguida, contou que é "um apaixonado pela Revolução Cubana", repetindo declarações que deu ao longo do dia. "Eu sou da geração apaixonada pela Revolução Cubana."Raúl Castro, irmão de Fidel e presidente em exercício, que estava a seu lado, disse estar muito satisfeito com a visita e chamou Lula de irmão. "Nós amamos o Brasil. Lula somente devia ter nascido em Cuba."Castro recebeu Lula em Havana e jantou com ele na segunda-feira. Ontem, o presidente participou de cerimônia na Praça da Revolução, diante do Memorial José Martí, tendo ao fundo o Ministério do Interior, que exibia a imagem de Che Guevara ao lado da expressão "Hasta la victoria siempre". Depois, seguiu para o Palácio da Revolução, onde passou em revista a Guarda de Honra das Forças Armadas e assinou acordos de cooperação com Cuba.?PIROTECNIA?Durante o dia, Lula evitou mexer no vespeiro da falta de liberdade em Cuba. Questionado sobre a repressão e o desrespeito aos direitos humanos, disse que não dá palpite na política interna de nenhum país, pois quem faz isso "quebra a cara". E afirmou que não vai aceitar nenhuma "pirotecnia" ideológica contra a ilha. "Não queremos contribuir para cercear a liberdade das pessoas quererem escolher o país onde vão morar, mas também não queremos criar nenhuma pirotecnia anticubana, como de vez em quando se tenta criar no mundo", afirmou. "Não queremos dar palpite nas coisas dos outros e, aliás, quem dá palpite quebra a cara. Vejam que o Citibank acaba de anunciar prejuízo de US$ 10 bilhões. Eles, que davam tanto palpite sobre como administrar as coisas, quando chegou a hora de provar a sua competência demonstraram que não têm tanta competência como falavam."Em entrevista diante da residência da Embaixada do Brasil, debaixo de chuva, Lula ainda brincou com o regime socialista da ilha: "Vamos socializar a chuva." Os repórteres insistiram sobre a questão da liberdade e lembraram os dois boxeadores deportados para Cuba após fugirem durante os Jogos Pan-Americanos, em agosto, no Rio."As pessoas não manifestaram interesse em ficar. Quem manifesta interesse em ficar pede asilo. Eles não pediram asilo", respondeu. "O ministro da Justiça, Tarso Genro, tratou o assunto como deveria tratar."Foi nesse momento que Lula se referiu ao que chamou de "pirotecnia" contra Cuba e defendeu pela primeira vez no dia a Revolução de 1959. Visivelmente emocionado, disse ter "carinho muito especial" por Fidel.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.