Lula afasta Lacerda de vez após ''empréstimo'' de 52 arapongas à PF

Revelação sobre bastidores da Satiagraha barra também retorno de outros três integrantes da cúpula da Abin

Tânia Monteiro, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2008 | 00h00

A revelação de que havia 52 agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin)na Operação Satiagraha selou a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de retirar definitivamente o delegado Paulo Lacerda do comando da agência. Lacerda foi afastado temporariamente no dia 1º, depois da divulgação do grampo de uma conversa telefônica entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).Com Lacerda outros três integrantes da cúpula da Abin foram afastados: o vice José Milton Campana, o chefe do Departamento de Contra-Inteligência, Paulo Maurício Fortunato Pinto, e o assessor especial da presidência, Renato Porciúncula. O Estado apurou que, como Lacerda, nenhum dos três voltará ao posto que ocupava na Abin. O Palácio do Planalto está certo de que, além da polêmica das maletas de fazer varreduras e grampos - levantada pelo ministro Nelson Jobim (Defesa), na reunião da coordenação política, na semana passada -, a Operação Satiagraha era uma investigação mais de Lacerda do que do delegado que a comandava, Protógenes Queiroz. Afinal, enquanto a PF mobilizou 23 profissionais, entre delegados, agentes, escrivães e peritos, a Abin liberou 52 agentes para trabalhar com Protógenes.Os problemas políticos gerados pela Operação Satiagraha não afetarão, porém, o general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e o ministro da Justiça, Tarso Genro. Quando estourou o escândalo, Félix chegou a pôr o cargo à disposição, mas Lula descartou a possibilidade de sua saída. O diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, também estaria a salvo, apesar de ter revelado falta de controle sobre o que se passa no órgão que comanda.Além de Lacerda, as atenções do governo estão centradas em Protógenes. Por ter convocado Francisco Ambrósio do Nascimento para a Operação Satiagraha - um ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de inteligência do regime militar -, o Planalto considera "liquidada" a carreira do delegado.Embora se queixe de falta de apoio da direção da PF, Protógenes teve a seu dispor, nos dez meses em que comandou a Satiagraha, uma equipe de tamanho considerável. Levantamento que a PF está fazendo, a pedido do Ministério Público, mostra que os recursos, equipamentos e pessoal mobilizado colocam a Satiagraha entre as cinco maiores ações dos últimos três anos.Isso inclui as três maiores operações do período: a Navalha, que prendeu 47 pessoas em maio de 2007 acusadas de fraude em licitações, corrupção e desvio de dinheiro público; a Furacão, que investigou um megaesquema de venda de liminares em favor de casas de bingos e caça-níqueis, e a Dilúvio, que desarticulou um esquema gigantesco de fraudes no comércio exterior. Nas três, foram mobilziados, na fase investigativa, entre 21 e 30 policiais.FUTUROA partir de agora, o futuro da Abin será discutido em novas bases. Segundo assessores palacianos, será feita uma análise do modelo da agência, que tem se envolvido em vários "incidentes políticos". O governo vem tentando fazer mudanças, mas até agora nada foi efetivado.A primeira alteração foi com a nomeação do delegado da Polícia Civil de São Paulo Mauro Marcelo de Lima e Silva, que foi obrigado a pedir demissão do cargo depois ofender o Congresso por causa da convocação do agente da Abin Edgard Lange, na CPI dos Correios. Mauro Marcelo chamou os parlamentares de "bestas-feras em pleno picadeiro". Lacerda, lembram auxiliares do presidente, levou para a agência atribuições que eram prerrogativas da PF. Ano passado, com a saída de Mauro Marcelo, o próprio Lula se convenceu de que não era uma boa idéia ter as duas organizações debaixo do mesmo guarda-chuva. Avaliou que a Abin deveria se manter como órgão de assessoramento direto do presidente.COLABOROU VANNILDO MENDES

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