Lula admite que conceitos de esquerda estão superados

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considera que certos conceitos de esquerda como "antiamericanismo e revolução" estão inteiramente superados, definindo-se como "militante político de um partido cujo compromisso fundamental é a construção de uma sociedade mais justa". O presidente brasileiro não hesitou um momento sequer quando os enviados especiais do jornal francês Le Monde perguntaram se ele admitia que tais conceitos são arcaicos. "Na minha opinião, sim. Como sou partidário da defesa da liberdade de expressão, cada um utiliza esses termos como melhor lhe convêm. Sobretudo porque essas mesmas palavras têm um sentido diferente em cada país". Para o presidente Lula, cada esquerda reflete a liberdade cultural e política de seu país, na América Latina ou em qualquer outro lugar. Segundo ele, um tipo de discurso de esquerda no Brasil não tem o mesmo peso no México. O presidente brasileiro confessou ao vespertino francês que jamais manteve a etiqueta de esquerda. "Sou torneiro mecânico de profissão, militante político de um partido, o PT, cujo compromisso fundamental é a construção de uma sociedade mais justa".Essa entrevista foi concedida no contexto da visita do presidente da França, Jacques Chirac, ao Brasil e ao Chile, cujo objetivo principal é renovar a parceria estratégica entre os dois países. O presidente francês deixou a França por quatro dias, debilitado politicamente por uma série de denúncias de corrupção, complôs e rivalidades políticas, forte divisão interna do governo, envolvendo alguns de seus principais membros, inclusive o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, e seu ministro do Interior, Nicolas Sarkozy. Nesse giro pela América do Sul, ele vai poder respirar mais aliviado por uma boa recepção que lhe será garantida, pelo menos em Brasília, por Lula, seu amigo pessoal. Desde sua posse, Lula mantém relações pessoais excelentes com Chirac, mas insuficientes para solucionar o contencioso agrícola entre os dois países, que bloqueia toda a negociação não só de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia, mas também a própria negociação comercial multilateral, a chamada rodada de Doha.GásQuanto às tensões com a Bolívia após a nacionalização do gás boliviano, o presidente brasileiro lembrou que existe lugar para a negociação, mais uma vez responsabilizando a imprensa, que pretendeu que ele fosse duro com a Bolívia. "Se não fui com os Estados Unidos e a Europa, porque deveria ser duro com a Bolívia, um país mais pobre do que o Brasil? Prefiro apostar na negociação do que desenvolver um discurso para uso interno", disse. O presidente Lula lembrou sua conversa com o presidente Evo Morales, em Viena, quando afirmou que ele tinha todo o direito de nacionalizar o gás boliviano, mas chamou a atenção para o fato de que, se o Brasil depende do gás boliviano, a Bolívia depende das compras no Brasil, razão pela qual "devemos encontrar um denominador comum".ChávezEm relação à crença do presidente venezuelano, Hugo Chávez, de que a integração latino-americana possa ser construída em oposição aos Estados Unidos, o presidente brasileiro disse que não se deve misturar ideologia e relações comerciais. "Mesmo Chávez não deve pensar isso, pois vende 85% de seu petróleo aos Estados Unidos... O que queremos, no Brasil, é evitar a dependência em relação a uma potencia ou a um grupo de potencias, construindo nossa soberania a partir de nossas capacidades tecnológicas e produtivas."ViolênciaO presidente tratou também do problema da violência no País. Disse que há muito tempo sabe que o sistema penitenciário vai mal e que, mesmo no interior das prisões, os chefes criminosos organizam assaltos, crimes e contrabando. Para ele, o que ocorreu em São Paulo revelou a fragilidade de sistema carcerário, de uma parte da policia, e do próprio conjunto da sociedade brasileira. "É preciso melhorar o sistema para evitar que os detentos utilizem os telefones celulares", disse.No plano social, ele procurou comparar os 40 meses de seu governo aos oito anos de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, dizendo que, em dezembro de 2003, o País gastava menos de R$ 7 bilhões em programas sociais, mas que agora gasta R$ 22 bilhões, tendo havido uma redução de 3 milhões no número de pobres do país.

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