Lula aconselha movimento negro a 'cutucar o governo'

Presidente disse para entidades cobrarem dele e dos ministros políticas de compensação e de inclusão social

Vannildo Mendes, do Estadão

20 de novembro de 2007 | 14h33

Em discurso na celebração do Dia Nacional da Consciência Negra, no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta terça-feira, 20, uma crítica velada ao desempenho do seu Ministério. Após lançar um programa de R$ 2 bilhões em favor das comunidades quilombolas do país, ele fez uma recomendação bizarra à secretária especial de Políticas de Igualdade Racial, Matilde Ribeiro e às lideranças negras presentes. "Cutuquem o governo", disse ele.   Segundo o presidente, os negros brasileiros esperaram mais de três séculos para começar a cobrar coisas a que tinham direito. Ele aconselhou que os líderes negros aproveitem os três anos que restam do seu governo para cobrar dele e dos seus ministros políticas de compensação e de inclusão social. "Quanto mais vocês cutucarem a Matilde, mais ela vai me cutucar e a somatória dessa cutucação é que vocês vão ter mais conquistas até o final do mandato", disse.   O programa, chamado de Agenda Social Quilombola, reúne ações de 14 ministérios, para garantir acesso à terra, infra-estrutura, inclusão econômica e acesso aos projetos sociais do governo, sobretudo o Bolsa-Família. Mas ele disse que, se não houver cobrança persistente, as coisas não acontecerão. "Digo isso porque ao longo de quase cinco anos aprendi a diferença entre uma decisão e a execução. É muito demorado". E explicou: "Entre se comprometer e gastar vai uma grande distância. É como olhar para a África e achar que dá para ir a nado".   Falando de improviso, Lula demonstrou irritação com o jogo de empurra que disse ter testemunhado nesses quase cinco anos de governo. "Eu já sei que os ministro vão dizer: não depende de mim, depende do ministério do Planejamento, que por sua vez vai dizer que depende do companheiro Guido (Mantega, ministério da Fazenda)". O presidente disse ser possível que a ministra tenha que percorrer todo esse caminho até chegar a Guido. "Mas se tudo isso não resolver, a Matilde então me procure que nós vamos ter que carinhosamente resolver o problema", enfatizou.   Estatuto da igualdade   Sem citar nomes, Lula aproveitou para criticar também os ministros que dão chá de cadeira nos colegas e nas pessoas que os procuram. "Se depender da agenda de alguns ministros, ela (Matilde) em vez de 2 dias, levará um ou dois meses para ser atendida". Ele disse que a ministra terá que esquecer a humildade e ir a todos os gabinetes cobrar as medidas prometidas, pois, se não houver amarração e cobrança, ocorrerá o que sempre tem acontecido no País; "Desmonta-se tudo". É assim a história desse país: só não se conseguiu desmontar quando o movimento organizado era muito mais forte.   Na mesma linha, Lula deu um conselho às lideranças negras para que seja aprovado o estatuto da igualdade racial, que tramita há vários anos no Congresso sem previsão de votação por falta de acordo político. "Ou vocês se convencem de que o estatuto só será aprovado quando o movimento chegar a uma proposta consensual, ou nós todos vamos completar 100 anos, como o arquiteto Oscar Niemeyer e o estatuto ainda estará tramitando".   E completou: "Pelo amor de Deus, amadureçam politicamente e construam, não aquilo que é ideal para cada agrupamento, mas uma proposta consensual, que permita um avanço, dentro do possível". Inconformado com a falta de acordo entre os próprios interessados na matéria, o presidente fez uma indagação: "Será que vocês não aprenderam: quanto mais nós divergimos, mais nossos adversários obtém vitórias sobre nós?".   Ele citou o exemplo da África do Sul, onde, a seu ver, os negros tomaram consciência de que são maioria e tomaram o poder dos brancos. "Eu duvido que os negros percam uma eleição lá", observou. Para Lula, o que há no Brasil é excesso de teorias e pouca objetividade. "Vamos deixar um pouco o teoricismo na gaveta e pegar a coisa prática do estatuto e vamos aprovar. Vamos deixar o que nos desune de lado e juntar aquilo que nos une para conquistar mais uma vitória".   Lula defendeu políticas compensatórias para os negros, como as cotas nas universidades e criticou os ricos que se opõem à medida. "Nesse país, toda vez que a gente tenta ajudar os mais pobres, aparece uma ciumeira. As pessoas não estão perdendo nada, mas não querem que os pobres cheguem a uma situação igual. E ser pobre negro é ainda pior", comentou.   Para o presidente, não é só uma questão de lei, mas de cultura. "(O preconceito) está impregnado no nosso cérebro e não se muda do dia para a noite", disse. Segundo o presidente tem muito falso moralismo por trás dos preconceitos. "Da boca pra fora, as pessoas são muito democráticas, igualitárias, modernas. Mas na hora que chega na partilha do pão, tem cara que quer mais pão do que o outro. Não quer dividir". Isso se aplica também a militantes da esquerda. "Muitas vezes são companheiros com posições que parecem esquerdistas, mas que são mais conservadoras que o mais conservador do mundo e não permitem um avanço".     Texto ampliado às 19h55

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