Loteamento garante sustentação política

Mas provoca disputas que enfraquecem estatais, desde o fim da ditadura

João Domingos, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

20 de maio de 2009 | 00h00

O aparelhamento das estatais tem ajudado os sucessivos governos pós-ditadura a montar suas bases de sustentação política, mas acabou por enfraquecer as empresas, transferindo para elas as brigas políticas travadas do lado de fora. A Petrobrás, por exemplo, tem sua diretoria loteada entre o PT, o PMDB e o PP, todos de olho na sua capacidade de investimento, R$ 53 bilhões, em 2008. A partidarização da empresa levou ainda à suspeita de direcionamento nos convênios assinados com ONGs baianas, entre outras, todas elas ligadas ao PT. E acabou por permitir à oposição (PSDB, DEM e PPS) fechar o cerco junto com o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério Público para investigar as recentes manobras contábeis feitas pelo diretor financeiro, Almir Barbassa, um dos cinco quadros do PT na direção da Petrobrás. A jogada fez com que a estatal deixasse de recolher R$ 4,38 bilhões em tributos aos cofres públicos. Com isso, Estados alegaram prejuízos de R$ 227,4 milhões e exigem ressarcimento. Diante de tal quadro, e da disputa política que se avizinha, a oposição conseguiu abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Petrobrás. A luta política de 2010, quando será eleito o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, começou bem antes e atingiu uma estatal fundada em 1954, a quarta mais respeitada do mundo, de acordo com o Reputation Institut. "O aparelhamento das estatais aprofundou-se muito agora em que o governo teve de montar uma base a qualquer custo. Mas não é um fenômeno novo. Deu-se em outros governos. Até nos militares, quem ocupava os principais postos eram os oficiais-generais. Acabou por se tornar uma tradição no Brasil", observou o cientista político Murilo Aragão. Por causa do gigantismo, da importância, do volume de dinheiro que movimentam, do número de funcionários que empregam, dos contratos bilionários que assinam em todos os locais, a disputa por cargos estratégicos nas estatais é maior do que a luta por postos em ministérios. Para garantir a Diretoria Internacional para Jorge Luiz Zelada, o PMDB fez todo tipo de chantagem ao governo, ameaçando derrotá-lo em seguidas votações no Congresso. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), padrinho da indicação de Zelada, atrasou a entrega do parecer sobre a prorrogação da CPMF - até hoje atribuem a ele parte da culpa pela derrota.A atual diretoria da Petrobrás foi toda ela indicada por partidos. O PT tem ampla maioria. Nomeou o presidente José Sérgio Gabrielli, o diretor financeiro, Almir Barbassa, o diretor de Exploração e Produção, Guilherme Estrella, a diretora de Gás e Energia, Maria das Graças Foster, e o diretor de Serviços, Renato de Souza Duque. O PMDB indicou Jorge Luiz Zelada para a Direção Internacional e o PP Paulo Roberto Costa para a Diretoria de Abastecimento. O PT nomeou ainda o ex-senador José Eduardo Dutra (SE) para a presidência da BR. A Brapetro, que distribui os combustíveis, está desde o início do governo entregue ao ex-senador tucano Sérgio Machado (CE), apadrinhado do presidente do Senado e do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.