Loteamento de cargos consolida favoritismo de Temer na Câmara

Deputado promete postos-chave da Mesa Diretora a aliados e obtém apoio de 12 partidos para presidir a Casa

João Domingos, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de janeiro de 2009 | 00h00

O loteamento dos 11 cargos da Mesa da Câmara está permitindo ao deputado Michel Temer (PMDB-SP) soldar a montagem de um bloco de 12 partidos comprometidos com sua candidatura à presidência da Câmara. É quase igual ao time de 14 legendas que dá apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a diferença de que o "blocão", como já é conhecido, conta com os três principais partidos de oposição - PSDB, DEM e PPS.Para tanto, Temer tem assegurado aos dirigentes dos partidos postos-chave na Mesa. O PT, por exemplo, deixará a presidência por força de acordo feito há dois anos com o PMDB e ficará com a primeira vice-presidência. Com isso, caso a chapa vença a eleição, um representante seu será o segundo nome na Mesa do Congresso (Câmara e Senado reunidos, em sessão bicameral) - o que garantirá ao partido que está na Presidência da República grande influência na hora da votação do Orçamento da União, entre outras vantagens asseguradas pelo cargo, como o de controlar todos os pedidos de informação feitos aos ministros.Um exemplo de adesão ao "blocão" para a garantia de cargos ocorreu com o PDT. O partido tem 25 deputados. Até segunda-feira estava alinhado com a candidatura de Aldo Rebelo (PC do B-SP). Mas, orientado pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi, também presidente licenciado da legenda, correu atrás de seu espaço. O deputado Mário Heringer (MG), que até o dia 31 liderava o chamado bloquinho, formado por PSB, PC do B e PDT, teve um encontro com Temer na segunda-feira.Em nenhum momento escondeu ter recebido de Lupi a ordem de garantir ao PDT um lugar na Mesa Diretora, nem que seja um dos quatro suplentes. O cargo, mesmo na condição de só participar das decisões quando em substituição a algum secretário, é a garantia de gabinete, telefone, cotas de papel e de correio extras, além de dez assessores. "O ministro lembrou que o PDT tem de garantir seu espaço", contou Heringer.FORÇACom a experiência de quem já ocupou a presidência da Câmara por duas vezes e agora, na condição de presidente do PMDB, terá influência muito forte na formação da chapa que vai disputar a sucessão do presidente Lula, Temer sabe que sua força política atrai os demais partidos. Tanto é que, nas conversas com os representantes das outras legendas, deixa claro que cada um terá o direito a uma vice-presidência, secretaria ou suplência pelo sistema da proporcionalidade. É só ficar a seu lado na disputa.Como o PT ficará com a primeira vice-presidência, coube ao DEM a segunda vice. A esse posto é entregue a Corregedoria-Geral da Câmara, que é encarregada de abrir ou não processo contra parlamentares por quebra de decoro. Significa que, além desse poder discricionário, o titular ainda controla os requerimentos para reembolso de despesas médicas e hospitalares apresentadas pelos deputados. Ao PSDB, que atualmente é dono da primeira vice-presidência, foi reservada a primeira secretaria, cargo de muito poder. O secretário controla um orçamento de R$ 3,5 bilhões. À primeira secretaria cabem as licitações, a assinatura dos contratos, o credenciamento de jornalistas e frequentadores da Câmara e até a organização dos espaços físicos, como as áreas reservadas às lideranças e aos partidos.A Osmar Serraglio (PMDB-PR), que o critica pela possibilidade de acumular a presidência da Câmara com a do PMDB, Temer responde que seu mandato no partido vai até março de 2010. "Vamos decidir isso depois da presidência da Câmara." COLABOROU EUGÊNIA LOPES

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