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Longa assepsia

Não se trabalha mais com a perspectiva de que os parlamentares envolvidos no esquema de corrupção na Petrobrás sejam conhecidos formalmente antes das eleições do Legislativo, o que significa que os eventualmente eleitos para cargos poderão não concluir seus mandatos nas Mesas Diretoras.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2015 | 02h03

O recesso do Judiciário, que termina dia 31 de janeiro, prazo também para o fim do direito a foro especial dos não reeleitos, e a notória intenção do Ministério Público em apresentar as peças para o inquérito mais completas possíveis, conspiraram para a descoincidência entre as eleições e o início do processo no Supremo Tribunal Federal.

O fim do suspense em torno desses nomes é importante pela desobstrução da rotina congressual e de governo e o ideal é que essa informação essencial fosse conhecida antes das eleições para as Mesas Diretoras da Câmara e do Senado, cujos cargos são ocupados pelo critério da proporcionalidade, o que dificilmente evitará que suas composições incluam parlamentares citados na investigação.

Tome-se por exemplo o caso do PP, que, segundo o doleiro Alberto Youssef, tem quase 100% de seus integrantes envolvidos de uma forma ou de outra no esquema. Youssef disse que apenas "uns dois escapam". A ser verdade, tem-se aí a dimensão do abalo que a lista produzirá na estrutura partidária, extensivo ao Congresso Nacional como instituição.

Em contrapartida, não se projeta, nos meios políticos, um julgamento no mesmo formato e com a mesma duração do mensalão, não só porque o caso presente restringirá o processo no Supremo aos que têm direito a foro especial, como também os ministros terão à sua disposição um inquérito muito mais consistente em cronologia, logística e provas do sistema montado na Petrobrás, do que no anterior.

A delação premiada fez a diferença nas investigações e permitiram ao Ministério Público ritmo e precisão maiores do que o imaginado na coleta de informações sobre um esquema gigantesco de corrupção que , sem esse instituto, poderia levar décadas ou mesmo não se viabilizar.

Por ora, as expectativas e avaliações estão concentradas na Petrobrás, mas o esquema de financiamento político, visível ainda apenas na petroleira, já mostra ramificações que o estendem a diversas áreas da administração pública, como afirmou o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa.

"O que acontece na Petrobrás acontece no Brasil inteiro", disse, autorizando a previsão de que a assepsia em curso ainda vai confundir por um bom tempo o noticiário político com o policial.

Agenda negativa

As primeiras declarações de Nestor Cerveró na prisão indicam que ele pretende enfrentar a versão da presidente Dilma Rousseff para a compra da refinaria de Pasadena, o que manterá a crise na empresa dentro do governo federal. Além de acusar o Conselho da época, presidido por Dilma, de "grave falha", Cerveró informa que Fernando Baiano, dado como lobista do PMDB, frequentava a diretoria de Gás e Energia, comandada por Graça Foster. Sua declaração, e a do Ministério Público, de que a corrupção não estancou na Petrobrás, agravam a situação da atual diretoria, por indicar que ela não tem controle das operações internas. Como as medidas no campo econômico são recessivas, e na política predomina a Operação Lava Jato, governo e Congresso permanecem na agenda negativa.

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