Localizar miseráveis é entrave, dizem analistas

Especialistas em políticas sociais apontam dificuldades nas regiões Norte e Nordeste, onde há grupos que vivem em locais isolados e de difícil acesso

Roldão Arruda / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 16h06

Entre especialistas em políticas sociais, é quase unânime a observação de que a maior dificuldade do programa Brasil Sem Miséria, que deve ser anunciado por Dilma Rousseff neste mês, será chegar até os miseráveis. "Estamos falando de um porcentual populacional que não está próximo de equipamentos sociais, vive em locais isolados e de difícil acesso, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, e que não é fácil de ser identificado", diz a médica epidemiologista Ana Maria Segall, especialista em segurança alimentar e professora da Unicamp.

 

Mesmo nos grandes centros urbanos, segundo o sociólogo Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), não se trata de um problema de fácil abordagem. "São famílias tão desestruturadas que não conseguem sequer acesso a programas e serviços a que têm direito", diz ele. "Elas têm um grau de mobilidade muito grande, movimentando-se o tempo atrás de bicos. No Rio, nós já sabemos que dentro das favelas existem áreas onde vivem grupos de famílias mais pobres que o conjunto ao redor delas, mas que são de difícil localização."

 

O economista Walter Belik, estudioso de questões ligadas à segurança alimentar, também acredita que o grande desafio será chegar à pessoas que se pretende beneficiar. Especialmente porque não se trata apenas de transferir renda com o auxílio de um cartão magnético, mas sim de capacitação profissional, de aumento da produtividade, elevação do nível educacional.

 

"Na zona rural, a pobreza é mais dura, mas a localização geográfica das pessoas é mais fácil. Isso possibilita o desenvolvimento de atividades destinadas a melhorar a produtividade desses grupos", diz. "Na cidade a família muito pobre se registra para receber o Bolsa Família em determinado local e em seguida muda-se. Continua recebendo o benefício, graças ao cartão oferecido pelo programa, mas não pode ser alcançada para trabalhos de capacitação profissional."

 

Para os especialistas, o melhor caminho para chegar aos grupos que se pretende atingir é o trabalho conjunto com agentes locais. "O trabalho tem que ser descentralizado e envolver pessoas que conheçam muito bem a realidade local. Pode ser um agente de programas de saúde, um carteiro, um estudante que mora na favela e assim por diante", diz Grzybowski.

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