Lixo, escambo e futebol no caminho da mata

Durante a tarde toda, o radinho de pilha pegou rádio AM para ouvir a rodada final do Brasileirão

Roberto Almeida, enviado especial à Amazônia,

06 de dezembro de 2009 | 21h09

 No pôr do sol, 10 facões foram limados e esmerilhados no barulho agudo que contrastou com o ronco do motor. Kukahã que ficou por quatro dias parado no rio Jandiatuba agora tem voz, ganhou vida e voltou ao Solimões para sair só dezembro 7, na cidade de Jutaí.

 

 

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Previsão de dois dias de viagem, no rumo da correnteza, descendo o rio. Às 6h, Kukahã deixou o Jandiatuba e contornou o cotovelo da entrada no Solimões. Ao meio-dia, passava ao largo de Amaturá, cidade na margem onde se via só letreiro e torre de igreja com andaimes.

 

Gado pastando, lixo no leito. Garrafas plásticas, chinelos, carteiras de cigarro, lixo no Solimões em frente às cidades. Foi assim também às 15h de Santo Antônio do Içá, às 17h quando deixou Tonantins para trás.

 

Seu Fernando, de péc-péc, ou canoa movida a motorzinho 5HP, encostou no Kukahã com pressa para vender macaxeira, limão, pimenta, milho e peixinho mandi. Barba branca olho azul, diz que veio do Ceará. Pediu troca por "combustol", o diesel que move seu péc-péc.

 

Na canoinha, menino e menina, só de bermuda e calcinha, pisavam a água marrom. O garoto trepou no Kukahã, foi advertido por seu Fernando e desceu rápido, pendurado pelo braço.

 

O chefe da expedição, Rieli, não sabia quanto valia a troca no balde de macaxeira, na panela de pimenta com limão. Seu Fernando só dizia "vê quanto o senhor pode me dar." Depois não resistiu e cobrou. "Vê 10 litros do 'combustol' que paga." Pagou.

 

Macaxeira se misturou com a carne do almoço, e a viagem seguiu rumo a Jutaí. Facão na lima, depois no esmeril para entrar na mata no fim de dezembro.

 

Parada brusca só no fim da tarde, com o sol caindo, quando balsa cheia de gás pediu por socorro. Motor quebrou. Na camaradagem do Solimões, o piloto Valderi ofereceu ajuda e logo foi empurrar. Mais de mil botijões parados no rio que foram para a margem, esperar por um socorro maior.

 

E durante a tarde toda, o radinho de pilha pegou rádio AM para ouvir a rodada final do Brasileirão. Metade do barco, assim como metade do Amazonas, é rubro-negra. Sofreu com o gol do Grêmio, vibrou com a virada e gritou na levantada do caneco. Kukahã virou Flamengo até que o chefe lembrou a todos que é palmeirense. E que ficou fora da Libertadores.

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