Livro revela bastidores do governo Geisel

O Ministério da Justiça, articulador político dos governos republicanos, teve o papel diminuído na gestão do presidente Ernesto Geisel, de 1974 a 1979, que dividiu as negociações entre a Casa Civil, ocupada pelo general Golbery do Couto e Silva, e o titular da Justiça, Armando Falcão.O candidato à presidência pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical, era a opção menos perigosa para canalizar as reivindicações trabalhistas. O ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, cujo perfil como economista se destaca mais que o de político, era a favor da manipulação dos índices de inflação, da venda de estatais e da incorporação do AI-5 à Constituição.Meios de comunicaçãoE Geisel dava enorme importância aos meios de comunicação, pois ampliou seu alcance e tentou acordos com os jornais, enquanto mantinha a censura. Estes são alguns pontos levantados no livro Dossiê Geisel, que acaba de sair pela editora da Fundação Getúlio Vargas, com base na análise do acervo de 15 mil documentos deixados pelo ex-presidente e entregues ao Centro de Documentação e Pesquisa (Cepedoc) pela filha dele, a antropóloga Amália Lucy Geisel, em 1988, dois anos após a morte dele.O livro reúne, em nove artigos organizados pelos historiadores Celso Castro e Maria Celina d?Araújo, a gestão do presidente em áreas como Justiça, economia, educação, política externa e sistema de informações.?Não há análise de ministérios como Saúde e Transportes, por falta de pessoal especializado no Cepedoc para estudá-los. Só levantamos os assuntos, usando metade dos documentos relativos ao período em que Geisel ocupou a presidência. Ainda há muito a ser pesquisado?, explica Castro, que ficou com o capítulo referente ao Serviço Nacional de Informações (SNI).Encontro com Mesquita e Marinho?O interessante é que, pela primeira vez, um presidente dá a público os despachos que teve com seus ministros e, através deles, se pode traçar a evolução de um momento decisivo na história do País. Isso ocorre graças a Amália Lucy, pois Geisel prometera doar os documentos, mas ela efetivou seu desejo, sem qualquer censura.?Segundo o prefácio do livro, Geisel já havia prenunciado alguns pontos de seu dossiê na entrevista que deu ao Cepedoc pouco antes de morrer e que virou livro. Mas há detalhamento de algumas questões, como seu relacionamento com a imprensa, em que ele, ao mesmo tempo em que promove o encontro de proprietários do Estado, Ruy Mesquita, e do Globo, Roberto Marinho, com Armando Falcão, para esclarecer as estratégias do governo com relação aos meios de comunicação, é informado sobre as dívidas desses órgãos junto aos bancos estatais e cumprimenta o ministro pela informação.Carta-protestoAinda nos documentos da pasta consta uma carta-protesto de Ruy Mesquita, datada de setembro de 1978, contra a ordem de censura vinda da Polícia Federal. O jornalista lamenta ver o País ?degradado à condição de uma republiqueta de banana ou de uma Uganda qualquer por um governo que acaba de perder a compostura? e garante que Falcão um dia deixará o Ministério e saberá, ?como aconteceu na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, ou na Rússia de Stalin?... ?a verdadeira história desse período em que a revolução abandonou os rumos traçados pelo seu maior líder, o marechal Castelo Branco, para enveredar por um caudilhismo militar que já está fora de moda, inclusive nas repúblicas hispano-americanas.?DualidadeA dualidade do presidente, que promoveu a abertura política, mas fechou o Congresso em 1977, em conseqüência dos resultados das eleições municipais no ano anterior, ficam patentes no Dossiê Geisel. Em 1975, por exemplo, o então cardeal-arcebispo do Rio, d. Eugenio Sales, sugere que empresários e militares discutam ?problemas gerais do Brasil?. Geisel apenas coloca um ponto de interrogação na sugestão (vetada por Falcão), mas se manifesta com um não por extenso à sugestão de tornar mais rígida a Lei de Segurança Nacional.?Ruim com Lula, pior sem ele?Nos documentos relativos à atuação do SNI, à falta de surpresas, confirmam-se, em fontes primárias, o que historiadores apenas intuíam. Não há menções à forma de atuação dos órgãos de repressão, mas muitas apreciações sobre assuntos diversos, desde a baixa confiabilidade da classe política, à necessidade de um líder sindical como Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.Segundo o SNI, ruim com ele, pior com outro: ?Suas postulações, para serem atendidas em sua totalidade, exigirão mudanças radicais na política trabalhista do governo?, mas o atendimento progressivo delas era ?a melhor maneira de evitar que outra componente de perturbação da tranqüilidade pública se insira na conjuntura delicada de transformações políticas que a nação está vivendo.?MídiaA importância da mídia aparece em vários capítulos, referindo-se ao papel dos meios de comunicação e à necessidade de expandir o seu alcance a todo o País, como forma de levar a ideologia do governo. O processo não começou com Geisel, mas se ampliou com ele, permanecendo os objetivos. Os canais de televisão e rádio eram do governo, que apenas os concedia aos empresários, obedecendo a critérios claramente políticos.No entanto, nem sempre os aliados se beneficiavam. Se José Sarney teve que esperar as eleições de 1976 para ver negado a um grupo inimigo um canal de televisão em São Luiz do Maranhão, Roberto Marinho teve uma concessão negada em João Pessoa, por temor de aumento de monopólio da Rede Globo.Derrota eleitoralSurpresa mesmo foi o resultado da eleição de 1974, a primeira derrota política do governo militar. Nas previsões do governo, a Arena, que tinha 223 deputados federais, poderia chegar a 265 parlamentares e, efetivamente, caiu para 204. Já o MDB, partido da oposição, cuja bancada só cresceria de 87 para, no máximo, 126, alcançou 160. ?Essas fontes precisam ser cotejadas com outras porque nem sempre revelam os fatos, mas a visão dos ministros?, alerta Castro. ?No entanto, são preciosas para se conhecer a atuação e o pensamento do único presidente militar que conseguiu fazer seu sucessor e promoveu a abertura política, à revelia de boa parte de seus correligionários.?

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