Livro relembra prisão de chineses na ditadura

Obra, que será lançada nesta terça, traz documentos oficiais e depoimentos sobre ação política ocorrida em 1964 contra nove cidadão da China suspeitos de subversão

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2014 | 15h12

RIO - Meio século atrás, nove cidadãos da China comunista foram presos pela polícia política da Guanabara, torturados, e condenados a 10 anos de prisão. Eram acusados de tentar mudar a ordem constitucional do País de forma subversiva. Estavam no Brasil legalmente, alguns em missão oficial, e não foi comprovado que exercessem qualquer tipo de atividade política. Mesmo assim, foram capturados em 3 de abril de 1964, espancados e levados para novas sessões de tortura. Só recuperaram sua liberdade um ano e quinze dias depois, expulsos pelo presidente Castelo Branco, em razão da pressão internacional.

Memória e bastidores deste episódio da ditadura que permanece vivo na democracia - o Brasil nunca pediu desculpas à China Popular pelas prisões, parte da histeria anticomunista pós-golpe - estão em "O caso dos nove chineses", dos jornalistas Murilo Fiuza de Melo e Ciça Guedes (Objetiva, 252 páginas, R$ 39,90). Lançado nesta terça-feira, 5, no Rio, o livro nasceu de sete meses de pesquisa em fontes como Arquivo Nacional e Superior Tribunal Militar (STM). Em 2014, os dois países comemoram 40 anos de relações diplomáticas.

"É uma mancha que permanece", diz Melo. Ele lembra que o dinheiro apreendido com os presos, equivalente hoje a US$ 900 mil, nunca foi devolvido. Também destaca que, ao longo dos anos, mesmo depois que os dois países trocaram embaixadores, o episódio é recordado pelos chineses, de forma discreta. Encontros diplomáticos dos dois países tiveram a ajuda de alguns dos ex-presos, como se a China quisesse

lembrar os brasileiros do que ocorrera.

Os encarcerados eram de três grupos. Dois eram jornalistas da agência de notícias Xinhua: Wang Weizhen e Ju Qingdong. Chegaram em dezembro de 1961. Quatro desembarcaram em junho de 1963 para organizar uma exposição comercial com produtos chineses. Eram Su Zinping, Hou Fazeng, Wang Zhi e Zang Baosheng. Havia ainda Wang Yaoting, Ma Yaozeng e Song Guilbao, que vieram em janeiro de 1964. Eram de uma missão comercial que veio ao Brasil comprar algodão. Cinco ainda estão vivos. Ju deu um depoimento por escrito aos autores.

As Nove Estrelas, como os chineses chamam seus cidadãos presos no episódio, foram vítimas do ambiente político conturbado que envolvia o Brasil na época, na Guerra Fria. O País reconhecia a China Nacionalista como representante do povo chinês. Mas o presidente Jânio Quadros enviou seu vice, o trabalhista João Goulart, para visitar a China Comunista, como iniciativa da Política Externa Independente (PEI, uma das novidades de seu governo. Para evitar problemas ,Jango foi como presidente do PTB. A vinda dos cidadãos chineses originou-se dessa Visita.

Em 3 de abril de 1964, porém, não havia mais governo Jango. Naquele início da ditadura, seriam presos cerca de 4 mil supostos inimigos do novo regime, muitos em navios. Policiais do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), chefiados pelo delegado Cecil Borer, prenderam os chineses . A operação e a tortura começaram ainda de Madrugada.

Além de torturados, os chineses ficaram 39 dias incomunicáveis. A investigação passou para o nível federal. Virou inquérito policial-militar. O jurista Sobral Pinto foi constituído advogado dos presos, mas só teve acesso ao IPM em 19 de agosto, após habeas corpus. Enfrentou dificuldades: só dois dos presos falavam português e, por ordem da Justiça, o grupo foi dividido por três quartéis do Exército: 1º Batalhão de Polícia do Exército (Tijuca), 1º Batalhão de Carros de

Combate (Bonsucesso) e 1º Batalhão de Guardas (São Cristóvão).

Sobral argumentou que documentos mostravam que os chineses tinham sido monitorados pela polícia política desde que chegaram ao País. Logo, se estivessem conspirando contra a Constituição, isso teria sido detectado pelos agentes secretos, o que não ocorrera. Um dos alvos da vigilância foi Amarílio Vasconcellos, que ajudara a montar a agência de notícias Xinhua.

"Achamos nos arquivos do Dops uma carta denunciando Amarílio, enviada por um informante identificado como "um lacerdista vermelho" ao Serviço de Atividades Antidemocráticas criado pelo Lacerda para perseguir seus inimigos", diz Ciça.

Mas o esforço do jurista não adiantou. Os chineses, cujos interrogatórios chegaram a ser acompanhados por um agente da China Nacionalista, foram condenados pela 2ª Auditoria da 1ª Região Militar. Sobral recorreu ao STM, mas o recurso não foi acolhido. As Nove Estrelas só deixariam a prisão em 17 de abril de 1965, expulsos por Castelo. França e Reino Unidos tinham se juntado à pressão internacional pela libertação.

Mais conteúdo sobre:
ditadura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.