Livro marca centenário do líder comunista Maurício Grabois

Militante rompeu com o PCB nos anos 60 e liderou a Guerrilha do Araguaia, onde foi morto no Natal de 1973

Leonencio Nossa - O Estado de S.Paulo,

05 de maio de 2013 | 20h28

BRASÍLIA - É difícil imaginar um político que põe romances e armas na mochila e vai defender em plena selva amazônica suas ideias. O cotidiano da vida pública atual, marcado pelo descrédito de suas figuras, torna a trajetória do guerrilheiro e ex-deputado federal Maurício Grabois de difícil compreensão. Pouco se escreveu sobre o líder da bancada comunista da Constituinte de 1946 e chefe da guerrilha do Araguaia, que teve o seu papel na história reduzido por setores da própria esquerda.

A biografia "Maurício Grabois: meu pai", escrito pela filha dele e professora da UFRJ, Victória Lavínia Grabois e publicado pela carioca Hexis Editora, evitou que o centenário do chefe do único movimento que a esquerda conseguiu estruturar no tempo da ditadura militar, passasse em branco. Líder da bancada do PCB na Constituinte de 1946, Maurício rompeu com o grupo de Luís Carlos Prestes, ajudou a fundar o PCdoB e foi para o Araguaia com o filho, André, o genro Gilberto e os romances existencialistas do franco-argelino Albert Camus.

Em tom emocional e incisivo, Victória descreve as dificuldades de um político que vivia como um "estrangeiro" no Brasil, um homem perseguido pela repressão do Estado num tempo em que as instituições públicas não davam garantias para a prática política mesmo nos intervalos de democracia.

A história dos Grabois narrada no livro começa com os pais de Maurício, Augustin Grabois, da Bessarabia, e Dora,da Ucrânia, migrantes que chegaram ao País no começo do século 20. Maurício permaneceu na selva até a morte,no Natal de 1973. Debilitado e quase sem visão, estava num acampamento na mata quando foi atacado por paraquedistas ligados ao oficial Nilton Cerqueira, mais tarde secretário de Segurança Pública do Rio.

Ainda no tempo em que preparava a guerrilha, Maurício voltava do Araguaia com plantas da floresta para presentear o neto. Na clandestinidade, arriscava a vida para aproveitar momentos com a família em lugares públicos de São Paulo, como o zoológico. Após a partida definitiva de Maurício para a Amazônia, a família se escondia em "casas de cômodos", como eram chamados os cortiços paulistanos. Em 169 páginas, Victoria apresenta o pai como personagem que se posiciona contra injustiças sociais, relata a tortura permanente que os parentes dos guerrilheiros do Araguaia sofrem e cobra um "total esclarecimento" sobre os corpos e as situações das mortes.

Maurício, político que atuou num Brasil onde democracia e ditadura se alternavam, foi novamente jogado na clandestinidade, desta vez pelos "camaradas". O PCdoB o descartou, porém, sem fazer a reavaliação da história do partido, como pediam os dissidentes do final dos anos 1970.

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