Acervo AIB/PRP-Delfos/PUC-RS
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Livro discute elo entre integralistas e a nova extrema direita no Brasil

Lançamento dos historiadores Odilon Caldeira Neto e Leandro Pereira Gonçalves busca relacionar o movimento dos anos 1930 com Jair Bolsonaro e seus apoiadores

José Fucs, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 05h00

Com a discussão sobre um possível flerte do presidente Jair Bolsonaro e de parte de seus apoiadores com o autoritarismo e o fascismo na ordem do dia, turbinada pelo inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar a realização de atos considerados antidemocráticos, um novo livro dedicado ao integralismo promete esquentar ainda mais o debate sobre a questão.

Intitulado O Fascismo em Camisas Verdes – do Integralismo ao Neointegralismo, o livro vai além da história do movimento criado pelo político e escritor Plínio Salgado, em 1932, e procura relacioná-lo com o presidente, os bolsonaristas e os grupos de extrema direita que surgiram no País nos últimos anos.

Numa manobra arriscada, os historiadores Odilon Caldeira Neto e Leandro Pereira Gonçalves, professores da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e autores de outros títulos sobre o tema, misturam acontecimentos longínquos, cuja análise é favorecida pela ação do tempo, com fatos atuais, cujos desdobramentos ainda estão por se revelar em toda a sua extensão.

Em nome da atualidade da obra, cujo lançamento da edição digital está marcado para a próxima terça-feira, eles resolveram encarar o desafio, mesmo sem ter o distanciamento que costuma permitir uma melhor compreensão dos acontecimentos históricos e do papel desempenhado por seus protagonistas.

Ao final, porém, podem ter chegado a conclusões precipitadas, ao concluir que Bolsonaro carrega os genes do integralismo e do fascismo, presentes também nos grupos neointegralistas. Mesmo levando em conta que, de um jeito ou de outro, Bolsonaro está participando do jogo democrático, eles o colocam na extrema-direita do espectro ideológico, lado a lado com os neointegralistas. Ao fazer isso, desconsideram que o integralismo defende uma mudança do regime, ainda que numa “segunda etapa”, com a implantação do chamado “Estado integral”, formado por representantes de categorias profissionais, como pregava Plínio Salgado nos velhos tempos.

Para os autores do livro, Bolsonaro já deu diversas demonstrações ao longo de sua trajetória política que o aproximam dos neointegralistas e da extrema direita, como o apoio ao regime militar, o anticomunismo, o antidemocratismo e o conservadorismo na área de costumes. A crítica à “velha política”, presente em seu discurso de campanha e hoje deixada de lado, em razão da aliança firmada com o Centrão, é outro ponto que reforça, na visão dos autores, sua identificação com o integralismo,  especialmente em seus primórdios, quando o movimento se levantava contra as forças políticas tradicionais.

Agora, é preciso levar em conta que a política econômica liberal praticada pelo ministro Paulo Guedes pouco ou nada tem a ver com o nacionalismo e o protecionismo defendidos pelos integralistas ou neointegralistas. É, aliás, motivo de rusgas com Bolsonaro. O mesmo se pode dizer em relação à aproximação do Brasil com os Estados Unidos e com Israel, promovida pelo atual governo, alvo de críticas contundentes dos neointegralistas. Ao contrário de boa parte dos grupos que reivindicam a herança do integralismo, que sempre cultivou um sentimento antissemita, principalmente as correntes mais identificadas com as ideias do advogado e escritor cearense Gustavo Barroso (1888-1959), Bolsonaro, ao que se sabe, também não costuma colocar os judeus como a razão de todos os males do mundo.

Hoje em dia, o termo fascismo perdeu muito de seu significado original e passou a ser usado pela esquerda como forma de “demonizar” seus adversários. Os traços autoritários de Bolsonaro e de muitos de seus seguidores podem ser observados a olho nu. Provavelmente, suas ideias e suas posturas tenham mesmo pontos em comum com as dos integralistas e neointegralistas. Mas também há divergências, que o afastam deles. Carimbar o presidente como “fascista” pode ser compreensível no jogo político. Do ponto de vista histórico, ainda é algo que está por se confirmar.

O Fascismo em Camisas Verdes – do Integralismo ao Neointegralismo

Autores: Odilon Caldeira Neto e Leandro Pereira Gonçalves

Editora: FGV

Páginas: 207 

Preço: R$ 28 (e-book) e R$ 40 (edição impressa)

Lançamento: 14/7 (e-book)

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