Livro de Eric Nepomuceno retoma o massacre de Carajás

Em novo trabalho, autor retrata as 'almas mutiladas' e a impunidade do dia 17 de abril de 1996

Andréia Sadi, do estadao.com.br,

13 de agosto de 2007 | 15h36

O telefonema de um amigo criminalista e um novo olhar sobre o massacre dos Carajás marcam o nascimento do novo livro de Eric Nepomuceno. Lançado no mês passado, O Massacare - Eldorado dos Carajás: uma historia de impunidade(Editora Planeta) é , nas palavras do autor, "a reconstituição mais minuciosa, completa e rica em detalhes’’ da tarde do dia 17 de abril de 1996, quando 19 sem-terra foram mortos pela Polícia Militar.   Veja Também:   Ouça a entrevista com o autor    No trecho da rodovia PA-150- principal do Pará, conhecida como Curva do S, mil e quinhentos sem-terra que estavam acampados na região decidiram fazer uma marcha em protesto contra a demora na desapropriação de terras, principalmente as da Fazenda Macaxeira.   Dezenove integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) foram mortos e 67 ficaram feridos pela Polícia Militar que estava encarregada de tirá-los do local. Para Nepomuceno, não houve "incidente ou choque entre os manifestantes e a polícia, e sim, uma 'carnificina brutal'".   Passados 11 anos, muitos ainda carregam as marcas da tragédia, alguns, inclusive com balas alojadas em partes do corpo. Em entrevista ao estadao.com.br, Nepomuceno disse que além das mutilações físicas, os sobreviventes sofreram mutilações na alma. "Ele convivem o tempo todo com os fantasmas do dia 17 de abril de 1996. Foram mutilados na alma".   A idéia inicial do livro era um trabalho sobre o julgamento dos possíveis culpados pela tragédia, sugerido pelo advogado Nilo Batista. Envolvido em outros projetos, o autor negou o convite do amigo. Mas, movido pela curiosidade, resolveu se informar sobre o tema e ficou indignado com a impunidade do caso: desde o dia do massacre, apenas um coronel e um major foram julgados.   "Quando descobri os absurdos do julgamentos e vi a chance de reconstruir a história em detalhes, aceitei o convite. Por trás de cada caso, há uma história de vida. Se eu tivesse escrito um romance, o editor iria pedir para dar uma suavizada, para não exagerar".       Mortos e sobreviventes   Em busca de um livro que oferecesse uma visão mais humana sobre a tragédia, o autor passou uma semana conversando com sobreviventes, militantes do MST e moradores comuns que pudessem ajudar a reconstituir o dia da tragédia. Mas, devido a tensão que ainda existe na região dos Carajás, Nepomuceno se instalou em Marabá, cidade vizinha, por uma semana em agosto de 2005.Ao todo, o autor levou três anos para concluir o livro.   "Para poder fazer esse trabalho de campo tive que me preocupar com a minha segurança.Conversava com as pessoas, entrevistando gente na casa deles mas não fiquei lá." Quando eu saí de Carajás, eu sabia que o que eu tinha, eu tinha. Porque não dava para voltar".       Uma das histórias retratadas no livro é a de Oziel Alves Pereira, um dos líderes do movimento. Morto barbaramente na tarde do dia 17, ele virou um dos símbolos da tragédia . "Oziel era muito querido. Ele foi morto cruelmente, as pessoas viram. Era querido inclusive por gente que era do governo Almir Gabriel (governador do Pará na época ), que acompanhou os acontecimentos, ele era daquelas pessoas de que todo mundo gostava, era emblemático".     Apesar disso, o autor conta que não há, entre os moradores e os dois mil sobreviventes da Vila 17 de Abril, ninguém apontado como "herói" (da tragédia, ou do massacre). Alguns se destacavam mais, como o Oziel , mas não há heróis. Alguns eram amigos há mais tempo, conviviam durante muito tempo . Era uma marcha de peregrinos, e todos tinham, como elo de ligação, a eterna espera da terra".   Quem é Eric Nepomuceno   Nascido em São Paulo, em 1948, O escritor e jornalista Eric Nepomuceno criou-se no Rio de Janeiro. Entre 73 e 83, viveu na Argentina, México e Espanha. Em 86, resolve se dedicar apenas à literatura, embora colabore para o jornal espanhol El País e o Página 12, da Argentina.   Por quase 20 anos, dedicou-se a traduções e produção de contos, mas não concorda que tenha se "afastado da reportagem." Fui criado em uma época em que o jornalismo é um gênero literário".   Entre as traduções, está Memória de minhas putas tristes e Cem anos de solidão, ambos de Gabriel Garcia Marquez.   Nepomuceno é autor dos livros A garota do trombone, Coisas do mundo, Quarta-feira, As palavras andantes, O livro da Guerra Grande (em parceria)e organizou Somos todos culpados: pequeno livro de frases e pensamentos de Darcy Ribeiro.       O Massacare - Eldorado dos Carajás: uma história de impunidade(Editora Planeta), de Eric Nepomuceno. R$33.      

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