Beto Barata/AE
Beto Barata/AE

Livre, Battisti escolhe SP para nova trincheira

Após quatro anos preso, ex-ativista desembarca em Congonhas disposto a retomar a vida na maior cidade do País e se dedicar à literatura

Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2011 | 23h00

Cesare Battisti, livre das muralhas da Papuda, chegou a São Paulo às 6h50 da manhã gelada de quinta-feira. Da janela do voo TAM que o trouxe, contemplou o amanhecer carrancudo da metrópole, antes do pouso em Congonhas. Ocupava o assento 22 A.

 

Em seu primeiro dia de liberdade, depois de 4 anos e 2 meses prisioneiro de severa disputa diplomática, ele refletiu sobre o recomeço. Tomou algumas medidas. Aos 56 anos, sua nova trincheira será aqui, na maior cidade do País que lhe outorgou o asilo político. Sua causa, agora, é a literatura e com ela planeja retomar a vida. Sua arma, textos de ficção. "É o meu trabalho. Um romance sem história pode existir, mas não romance sem tema."

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Vem aí Ao pé do muro, pela Editora Martins Fontes, o último da trilogia que já teve Minha fuga sem fim e Ser bambu.

 

A obra do homem que a Itália acusa de quatro assassinatos nos anos 70 conta a vida de brasileiros que conheceu no cárcere da Polícia Federal. "Cada preso tem sua própria história, entendi o Brasil através de relatos dessa gente. Cada preso é uma janela do Brasil. É uma ficção biográfica. Sob o pretexto de denunciar situações sociais, adoto o gênero romance. É o tema que conta."

 

Não acha prudente, neste momento, pronunciamentos pela mídia. Teme repercussões por todo o mundo, especialmente na sua Itália, onde querem recebê-lo com intolerância e algemas.

 

A defesa aconselha cautela. Tem regras a acatar. Qualquer palavra que disser, argumenta, poderá ser interpretada como provocação, acirrar a contenda. "Não quero que vejam como a celebração de um triunfo. É preciso respeitar as instituições e as famílias."

 

Deixou a prisão sem documentos, traz no bolso o alvará de soltura. Nada mais. Aguarda um papel que, enfim, lhe devolverá a cidadania. É o Registro Nacional de Estrangeiro. Sem isso, não pode dar um passo. A previsão é que a cédula de identidade demore até uma semana para chegar a suas mãos. Há gestões em curso no Ministério da Justiça para apressar a emissão.

 

No embarque em Brasília, quase ficou. Luiz Eduardo Greenhalgh, que o acompanhava, exibiu a carteira de advogado. Seu filho, Luiz Paulo, também advogado, fez o mesmo. "E o senhor?", indagou o funcionário da companhia aérea, apontando para Battisti. Greenhalgh mostrou um jornal com a foto do italiano. "Eu me responsabilizo." Deu certo.

 

Às 7h30, Battisti está no apartamento de um amigo, em Higienópolis. Descansa até o almoço. À mesa, serve-se com gosto. Uma salada, arroz branco, brócolis e carne cozida "muito ótima, com um molho maravilhoso". Em suas palavras, "uma xepa especial". Na gíria da reclusão, xepa é refeição.

 

Às 14h, ele chega ao escritório de andar inteiro onde Greenhalgh dá expediente, o 19.º de um prédio no centro. É acolhido com generosidades e até emoção pelos funcionários. "Parabéns", alguém exclama. "Que briga, hein, César?" "Esse aqui é o Paulo, meu irmão."

 

Amável, o italiano estende a mão a todos, serenamente.

 

Greenhalgh não é só um causídico mergulhado no mundo das ações penais. Sua história e seu currículo revelam o homem que desafiou o arbítrio nos anos 70 e com destemor tomou a defesa de militantes clandestinos e dos metalúrgicos do ABC, enquadrados na Lei de Segurança, e entre os que representou nos tribunais estava aquele que mais tarde se tornaria presidente da República.

 

Ornam as paredes de seu gabinete retratos e pinturas que destacam os excluídos e a injustiça. Greenhalgh apresenta a Battisti sua coleção, inspirações de um pessoal talentoso, mas anônimo. No corredor, um quadro pequeno. "Aqui é La Tablada, na Argentina. Os presos não tinham pincel, então pintaram com os dedos e palito de dente", descreve o advogado. "É muito bonito, incrível", diz Battisti.

 

Na sala de reuniões, duas molduras de alumínio, paisagens do Acre, presente de Chico Mendes, o guardião da grande floresta. "Ah, o famoso Chico. Quando ele foi assassinado?" "Em dezembro de 1988." Uma pausa, a moça da copa traz chá para o advogado, uma xícara de café para Battisti. Os olhos do italiano brilham quando Greenhalgh mostra a relíquia, uma foto do julgamento de Lula e Chico Mendes na auditoria militar de Manaus. "O que fazia o Lula em Manaus?", questiona Battisti. "O Lula foi para o banco dos réus por incitação ao crime, ele disse que estava na hora da onça beber água", conta o advogado.

 

Imigração. Battisti permanece no Brasil como imigrante ilegal. Seus advogados deram entrada no Ministério do Trabalho com pedido de visto permanente, que será avaliado pelo Conselho Nacional de Imigração na próxima reunião, prevista para dia 22. Compete ao Conselho avaliar a concessão de visto em casos excepcionais como o de Battisti.

 

Ele poderá usar como documento o protocolo do pedido de permanência. Concedido o visto, poderá tirar outros documentos. "Battisti quer apenas trabalhar, um lugar para morar e escrever", anota Greenhalgh. / COLABOROU FELIPE RECONDO

 

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