Lista de votação pode ter sido alterada, dizem peritos

Mesmo que uma lista de votos da cassação do ex-senador Luiz Estevão venha a público, não há como provar a sua autenticidade. Qualquer informação sobre quem votou contra ou a favor do pedido de cassação pode ser falsa e pode ser rebatida pelos próprios senadores. Caso uma lista seja divulgada, quem votou contra poderá alegar que votou a favor, mas teve seu voto alterado. A equipe de peritos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) deixou claro hoje, em entrevista na universidade, que o sistema de votação do Senado foi violado na manhã do último dia 28 de junho, quando Estevão foi cassado. Mas avisou que não há como descobrir se os votos dos senadores foram alterados. Poderiam ter sido, uma vez que o sistema apresenta falhas primárias em pontos distintos, dos cabos de instalação da rede de computadores às senhas dos parlamentares, que não têm nada de secretas. Segundo os peritos, não há como chegar à lista correta dos votos pelo sistema. Mesmo que isso ocorra por outros meios, supondo que alguém entregue a relação de votos, não há como saber se ela é a original. Os técnicos da Unicamp disseram ainda que não encontraram vestígios de nenhuma outra violação em votações sigilosas, apenas no dia da cassação de Luiz Estevão. Mas alertaram que isso não quer dizer que elas não tenham ocorrido.O chefe de gabinete adjunto da reitoria e colaborador da análise do sistema de votação, professor Álvaro Crosta, disse que a violação cometida no dia 28 de junho foi grotesca. "Eles arrombaram a janela com a porta aberta", comentou. De acordo com ele, cópias da lista de votos poderiam ter sido retiradas semlevantar suspeitas de fraudes. Bastaria copiá-la do arquivo onde ficam os votos dos senadores antes de o presidente da Casa encerrar a votação. Esse arquivo é uma das falhas apontadas no resumo do relatório dos peritos da Unicamp, entregue no dia 27 de março à Comissão de Inquérito do Senado. Os votos secretos são guardados num arquivo, não criptografado, enquanto a votação está ocorrendo. E somente são apagados depois que o presidente doSenado encerra a votação.Por meio de uma série de falhas físicas, também apontadas no resumo do relatório, qualquer pessoa, dentro e fora da sala de votação, poderia ter acesso aos votos sem deixar rastros antes de o presidente da mesa encerrar a sessão. Depois de encerrada, os votos de sim ou não se transformam em Xe apenas indicam que o senador votou, sem especificar seu voto.Outro grave equívoco é que as senhas dos senadores são fixas e foram entregues pela empresa que instalou o sistema, Eliseu Kopp. Qualquer pessoa que conhecesse a senha dos senadores poderia ter alterado seu voto enquanto a sessão de votação estivesse aberta, antes de o presidente encerrá-la. Com isso, além da confirmação de que uma lista foi extraída do sistema no dia da cassação de Luiz Estevão, abre-se a possibilidade de que os votos dos senadores tenham sido alterados. E mesmo que tenham sido,não há como confirmar, explicaram os peritos. InvestigaçãoO trabalho da equipe da Unicamp pode ser dividido em duas etapas. Naprimeira, eles vasculharam todo o sistema em busca de falhas que permitissem a violação. Chegaram a 18 itens, traduzidos em quatro categorias: vulnerabilidades físicas, dos programas de controle, do sistema devotação e da atribuição e uso das senhas. Essas informações compõem o resumo do relatório, entregue dia 27 último, no qual os técnicos afirmaram que não havia como identificar se havia ocorrido fraude ou não nasvotações.Numa segunda fase, no entanto, os peritos fizeram uma varredura em 15 mil arquivos apagados que deixaram rastros no sistema. Foi aí que encontraram indícios da violação ocorrida no dia da cassação de Luiz Estevão. O relatório final, com a confirmação da fraude, foi entregue à Comissão de Inquérito no último dia 9, e mantido em sigilo até ontem para que a CI pudesse ouvir testemunhas que confirmassem a intervenção.Na manhã do dia 28, por volta das 8 horas, portanto antes da votação, alguém fez uma cópia do código-fonte do sistema, a partir do qual são gerados os programas que permitem seu funcionamento, para guardar suas características originais. Em seguida, alterou-o. O responsável suprimiu os comandos quefazem com que os votos dos senadores sejam apagados assim que o presidente encerra a sessão. Com isso, no lugar do X usado para manter o sigilo, indicando que o senador votou, o sistema registrou voto a voto, com os respectivos sim e não digitados por cada senador. Os peritos descobriram que os comandos foram extraídos do código-fonte, mas não têm como saber se os votos foram alterados. Na seqüência, foi criado um programa executável para colher os votos.O programa ainda foi testado. O fraudador utilizou a senha de um dos senadores para checar se o voto permaneceria nominal e não indicado com o X. A simulação também ficou registrada no sistema. Os peritos preferiram não divulgar que senha foi usada e disseram que ela poderia ter sido escolhida aleatoriamente.Após o término da sessão, batizada PRS66/00, o sistema registrou que foi feita uma cópia em um disquete, denominada Prs66_00.txt. O txt final indica que essa cópia continha um texto, a relação dos votos. O professor Marco Aurélio Amaral Henriques, um dos três peritos, membros do Departamento de Engenharia de Computação e Automação Industrial da universidade, disse que há indícios de que o fraudador tenham tentado restabelecer o código-fonte original no mesmo dia e no dia seguinte, mas nãoconseguiu, provavelmente porque foi interrompido.Os arquivos modificados somente foram reeditados dois dias depois, por volta das 16 horas de 30 de junho do ano passado. Nesse período, a lista de votos permaneceu no sistema e poderia ter sido acessada por qualquer pessoa. Segundo os peritos, a inexistência de justificativas técnicas para a alteraçãodeixaram evidente que se tratou de fraude. O professor José Raimundo de Oliveira afirmou que os indícios de violação foram encontrados somente no dia da cassação de Luiz Estevão.Outras votações secretas foram analisadas, mas não houve irregularidades constatadas. De acordo com Raimundo, foram encontrados 70 eventos indicando fraude no dia 28 de junho. "Foram 70 marcas registradas em arquivos ativos e apagados. As alterações tiveram início exatamente às 7h24m32 e foram constatadas até às 16 horas do dia 30. Com isso conseguimos descrever o cenário do dia da votação", informou. Os peritos descobriram também que, para entregar à secretaria do Senado uma cópia da lista com os X no lugar dos sim e não, como estava registrada no sistema, o fraudador teve que promover a alteração "na mão". Ou seja, criou outro arquivo no qual removeu as resposta e colocou o X no lugar delas apenas para entregar a cópia à secretaria. O arquivo original, no entanto, continha os votos nominais e somente foi alterado dois dias depois.No relatório final, os peritos recomendam mudanças que podem tornar o sistema de votação do Senado menos vulnerável. De acordo com o professor Mário Jino, eles apontaram principalmente duas situações de maior vulnerabilidade, a existência de arquivos temporários com a qualidade dos votos e a forma de uso das senhas dos senadores.

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