"Lista ainda vai aparecer", afirma ACM

A renúncia do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) não deverá representar o início da trégua nem o fim da crise política. "A lista vai aparecer", afirmou o ex-presidente do Senado, convicto de que mais surpresas sobre a votação que cassou o senador Luiz Estevão poderão vir a público. "A CPI da Corrupção é inevitável", completou, ao acenar com a hipótese de seu filho e suplente Antonio Carlos Magalhães Júnior vir a assinar o requerimento da oposição. No discurso de despedida do Senado, ACM vai culpar o presidente Fernando Henrique Cardoso pelo racionamento de energia. " O presidente Fernando Henrique é o responsável pelo apagão", enfatizou, ao manusear relatórios de 1996 e de 2000, feitos pelo próprio governo, alertando para a iminência da crise energética."O presidente precisa acabar com essa mania de achar que é infalível", afirmou ACM, para quem Fernando Henrique deveria assumir os erros pela crise de energia. No discurso da próxima quarta-feira, previsto para durar 35 minutos, ele responderá as acusações feitas pelo presidente contra o PFL. Não deixará também de associar Fernando Henrique ao presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA). "O presidente e Jader são a mesma coisa", observou. Para ACM, com exceção do ministro Aloysio Nunes Ferreira, da Secretaria Geral, todos os inquilinos do Palácio do Planalto atuaram em favor de sua cassação. "O presidente trabalhou antes e, depois, amedrontou-se", desabafou o senador.O próprio ex-senador José Roberto Arruda revelou recentemente a amigos que teria participado de reunião no Palácio da Alvorada em que o ministro da Saúde, José Serra, pedira a cassação de ACM. O encontro aconteceu depois da divulgação do teor da conversa entre o senador e procuradores da República, estopim da crise que resultou na renúncia do mandato. O último encontro entre o senador e Fernando Henrique aconteceu no dia 8 de fevereiro. Mas o relacionamento já estava deteriorado há meses. "Quando eu me afastei do presidente todos do Palácio do Planalto também se afastaram de mim", contou. ACM lembra que mantinha boas relações com os ministros Pedro Parente, do Gabinete Civil, e da Fazenda, Pedro Malan. Nos momentos de crise, era Pedro Parente que tentava estabelecer a paz. "Os senhores não podem brigar", ponderava Parente, segundo ACM.O discurso de renúncia conterá críticas duras ao governo, mas ACM promete não entrar em conversas sigilosas ocorridas entre ele e Fernando Henrique. "O presidente sabe que eu não vou atacá-lo tão forte. Não falarei nada que seja motivo de conversas íntimas e pessoais com ele. Mas não vou frustrar as expectativas", afirmou. O senador Jader Barbalho, a quem acusou de ter se beneficiado de recursos públicos oriundos da Sudam e do Banpará, também será citado. ACM entende que o presidente do Senado será punido. " A não ser que haja um conluio dele com o PT", reagiu, ao insinuar que, para salvar o presidente do Senado, poderia haver um "acordão" entre petistas e governistas. ACM deixa visível sua decepção com o PT, que o usou quando precisou de sua influência e poder - sobretudo na campanha pelo aumento do salário mínimo - e não honrou os acordos firmados para a eleição de seu sucessor no Senado. "O PT não cumpriu e não cumpre palavra. Por conta deles ( dos petistas) fiquei mal no PFL", observou, para acrescentar que o acordo com o PT envolvia o apoio de petistas ao deputado Inocêncio Oliveira para a presidência da Câmara. Mas o PT lançou candidatura própria, consolidando, assim, o acordo das demais forças políticas ungindo Aécio Neves na presidência da Câmara.Nojo - O ex-presidente do Senado acusou a imprensa de ter propiciado um "massacre" contra ele e que entrou como "vítima" no episódio. ACM não esconde ainda sua decepção com senadores que teriam sido desleais ao longo da investigação. No PT, ele faz distinção ao senador Tião Viana (PT-AC) que, segundo ele, comportou-se sempre com retidão e ética. Quanto aos aliados, exceto alguns pefelistas, afirma serem poucos os que merecem palavras de elogios. Ele está convencido de que muitos colegas votaram contra ele, contrariando posições anteriores, por conta de pressões do governo. "Foram incentivados pelo Planalto", concluiu. Ele não cita nomes, mas avisa: "Tenho de dizer alguma coisa no discurso que eles precisam ouvir". Para completar: "Tenho nojo daquela gente. E não quero mais conversa com aquela gente". Quanto à lista de votação da sessão que cassou Luiz Estevão, o senador afirma que não a possui. Mas dá sinais de que a polêmica em torno do assunto ainda não está encerrada e, inclusive, aposta que a relação dos votos ainda poderá se tornar pública. "A lista vai aparecer", avisou. No depoimento que fez ao Conselho de Ética, ACM revelou ter se espantado ao ler nomes de senadores que votaram contra a cassação de Luiz Estevão no plenário. Ontem, ele manifestou surpresa com as notícias, atribuídas a Arruda, de que o senador José Eduardo Dutra (PT-SE), líder do bloco de oposição, sabia da lista e inclusive ajudou a obtê-la. O resultado desfavorável da votação do Conselho de Ética selou, portanto, seu destino. ACM acredita que até poderia ganhar na Mesa - num prognóstico de quatro votos contra dois - como também no plenário. Pelos seus cálculos teria 27 votos contrários no plenário do Senado. Mas entendeu que não valia mais a pena insistir no desgaste. Tanto que impediu os advogados a entrarem com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a anulação da sessão do Conselho de Ética. Para ele, prosseguir em busca de uma alternativa à cassação exigiria um roteiro penoso. "Eu teria de ficar mais calado, sem poder xingar o Jader e sem poder atacar o presidente Fernando Henrique", admitiu, confirmando ter decidido pela renúncia na noite de quarta-feira passada. Num tom de desabafo, ACM reconhece hoje que deveria ter renunciado ao mandato com a eleição do senador Jader Barbalho para o comando do Senado, que representou sua primeira e estrondosa derrota política na Casa. Um amigo o aconselhou a renunciar. Porém, ele não aceitou a idéia. Massacre - O ex-presidente do Senado dá sinais de que, apesar de sua renúncia, a temperatura política continuará alta no Senado, mantendo o clima de denúncias e apreensão do governo. Ele acredita que a CPI da Corrupção será instalada, por conta do número de assinaturas que o requerimento já obteve e que ainda poderá conseguir na Casa. Quanto à bancada do PFL, ACM disse que não poderia falar por todos. "Mas o Júnior pode ser que assine", alertou, referindo-se ao filho e suplente Antonio Carlos Magalhães Júnior que assumirá sua cadeira no Senado. Em seu apartamento, no bairro da Graça, ACM tem guardado documentos que retratam a história da crise de energia. O relatório de 1996, na época em que Antonio Imbassahy (prefeito de Salvador) presidia a Eletrobrás, já apontava para redução de investimentos e dos reservatórios. É assinado por autoridades do governo. Entre eles, o ministro Pedro Parente, curiosamente o coordenador da Câmara de gestão da crise de energia elétrica. Na época, Parente era secretário executivo do ministro da Fazenda, Pedro Malan. Outro relatório, de maio de 2000, entregue ao presidente Fernando Henrique, já deixava claro o risco da falta de energia.Antonio Carlos responsabiliza Fernando Henrique pelo racionamento, lembrando que o governo teria de instalar as termelétricas "de qualquer jeito" e fazer linhas de interligação. "Não quiseram gastar dinheiro no setor e jogaram tudo para São Pedro", comentou, para acrescentar que, a partir de 1995, as informações disponíveis já apontavam para o aumento de consumo de energia e a baixa capacidade instalada.

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