Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Lira transfere imprensa para subsolo no prédio do Congresso

Ordem para alterar local de trabalho de jornalistas foi comunicada nesta segunda-feira; mudança pode dificultar acesso de jornalistas ao presidente da Câmara

Camila Turtelli e André Shalders, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 18h59
Atualizado 08 de fevereiro de 2021 | 22h21

BRASÍLIA – Uma semana após assumir a presidência da Câmara, o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL) mandou mudar o local de trabalho dos jornalistas na Casa. A ordem para retirar os profissionais de uma sala ao lado do plenário, onde ocorrem as votações, e deslocá-los para um espaço sem janelas no subsolo do prédio do Congresso, foi comunicada nesta segunda-feira, 8, pelo diretor-geral, Sérgio Sampaio. A intenção é instalar o gabinete de Lira onde funciona o Comitê de Imprensa desde a transferência do Legislativo para Brasília, na década de 1960.

A mudança pode dificultar o acesso de jornalistas ao presidente, já que ele poderá ingressar no plenário diretamente, sem precisar se deslocar pelo Salão Verde, além dos deputados. Atualmente, o gabinete do presidente da Câmara está localizado a poucos passos do plenário.

A deputada Soraya Santos (PL-RJ), que até o mês passado exercia o cargo de primeira-secretária da Mesa Diretora, uma espécie de “prefeita da Câmara”, afirmou que está em curso um projeto para alterar a estrutura física da Casa. “Com certeza, onde está hoje o Comitê de Imprensa, se fosse eu a presidente, seria a sala do presidente. Não por cerceamento (de imprensa), mas não pode um presidente, quando ele precisar fazer uma reunião com os seus líderes, quando ele precisar se dirigir ao Congresso, ele ter de atravessar o Salão Verde. Temos de otimizar o tempo”, disse a deputada no último dia 25.

Líder da bancada do Novo em 2020, Paulo Ganime (RJ) disse que a mudança é “ruim” se tiver o objetivo de afastar a imprensa. “Realmente não sei o que motivou a mudança, se é só uma questão de logística, de agilidade. Se for isso é justificável. Mas concordo que é uma forma também de blindá-lo do contato com a imprensa, o que é ruim”, disse.

"O presidente da Câmara, nos Estados Unidos, é chamado de speaker. É o porta-voz da Câmara, que tem esse papel de falar em nome da Câmara, de representar para fora. Então, ele tem que ter o acesso direto à imprensa”, disse Ganime, ressaltando que não fala mais em nome da bancada. O atual líder, Vinicius Poit (SP), preferiu não comentar.

Para a líder da bancada do PSOL na Câmara, Talíria Petrone (RJ), a mudança pode significar uma “fratura na democracia” da Câmara. “Precisamos garantir todas as  condições para os profissionais da imprensa terem o acesso mais amplo o possível aos parlamentares e ao que é discutido no Plenário, para o conjunto da sociedade participar”, disse.

“Um presidente da Câmara precisa estar o tempo todo exposto a perguntas, a dar esclarecimentos. Se ele estiver optando por essa mudança para não precisar escutar a população e a imprensa, entendemos que é bastante equivocado para alguém que conduz a Câmara”, disse a líder do PSOL.

Cotada para ser a próxima Secretária de Comunicação da Câmara, Carla Zambelli (PSL-SP) disse que ainda não conversou com Arthur Lira sobre a mudança, mas defendeu a alteração. O novo presidente da Câmara não comentará “cada notícia da República”, até para evitar atritos entre os Poderes, segundo a deputada.

“Mas eu não acho que ele faça a mudança do do Comitê de Imprensa só por isso. Deve ter também uma questão logística”, disse Zambelli. “Não acho que seja para evitar a imprensa, necessariamente”, disse ela.

Não é a primeira vez que um presidente da Câmara tenta retirar a imprensa do local. O prédio do Legislativo é patrimônio histórico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). 

A mudança foi tentada nas gestões do PT na presidência da Câmara, mas houve resistência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pois o prédio é tombado e, por isso, só pode ser modificado com autorização do órgão. 

O aval só veio na gestão de Eduardo Cunha (MDB-RJ). O emedebista pretendia levar a reforma adiante, mas acabou tendo o mandato cassado em 2016 antes de conseguir executar a obra. Ele foi preso por envolvimento na Lava Jato no mesmo ano. 

Na gestão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) o assunto chegou a ser discutido, mas também não foi adiante.

Questionada, a Câmara não informou o valor da reforma, que envolve até instalar um elevador para cadeirantes dentro do gabinete presidencial. Em nota, Lira disse que a mudança “em nada vai interferir na circulação da imprensa, que  continuará tendo acesso livre a todas as dependências, como o cafezinho, o plenário, os corredores, os salões e a própria presidência”. “O objetivo da alteração é aproximar o presidente dos deputados, como eu falei em toda a minha campanha”, diz o texto. Atualmente, o gabinete do presidente da Câmara está localizado a poucos passos do plenário.

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