Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Lira ordena ‘despejo’ de Comitê de Imprensa, mas recua de alocar jornalistas no subsolo

Profissionais serão transferidos para um ‘puxadinho’ enquanto obra do novo Comitê não começa

André Shalders e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 19h23

BRASÍLIA — O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (Progressistas-AL), mantém sua decisão de expulsar os jornalistas do Comitê de Imprensa da Casa, um espaço utilizado pelos profissionais que fazem a cobertura do Congresso desde a década de 1960, mas recuou na sua proposta de transferi-los para uma sala no subsolo do prédio. 

A saída dos profissionais estava marcada, inicialmente, para esta quinta-feira, 11. Agora, o local deverá ser desocupado até o fim de semana. A partir de segunda-feira, 15, os jornalistas passarão a trabalhar em uma sala contígua ao atual comitê, que entrará em obras, um espaço inferior ao atual. 

A mudança deve dificultar o trabalho da imprensa. Isso porque o espaço onde hoje ficam os jornalistas tem acesso direto ao local de votações, o que permite agilidade na hora de informar o que se passa nas sessões, onde são discutidos projetos que afetam diretamente a vida das pessoas.

A sala agora abrigará o gabinete de Lira. A transferência também evita o acesso ao presidente da Câmara, que poderá ingressar no plenário diretamente, evitando, assim, ser abordado por profissionais de imprensa. Interlocutores de Lira estimulam o presidente a evitar o contato diário com jornalistas. 

O novo espaço oferecido não tem acesso direto ao plenário da Câmara. De início, o plano era que os profissionais passassem a trabalhar numa sala num andar inferior do prédio, sem janelas e sem acesso direto ao plenário. O novo local também é menor que o atual. O atual comitê possui 288 metros quadrados, enquanto o espaço no subsolo tem 107 metros quadrados, mesma metragem do espaço que abrigará os repórteres enquanto durarem as obras.

Nesta quinta-feira, Lira disse aos jornalistas que, após as reformas, o Comitê de Imprensa passará a ocupar parte do local hoje designado para a Primeira-Vice-Presidência da Câmara. O espaço - de 255 metros quadrados no total - é próximo ao plenário, mas nem todo ele seria ocupado pela imprensa. Lira não informa quantos metros quadrados serão cedidos para abrigar os mais de mil jornalistas que trabalham diariamente na Casa. 

Segundo o presidente da Câmara, a reforma que irá transformar o Comitê no seu novo gabinete deve ser concluída dentro de três meses, porém, somente depois disso é que a obra no espaço que passará a ser ocupado pela imprensa será iniciada – esta sem prazo para começar ou terminar. A Câmara não informa o valor das obras. 

Entidades da imprensa como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) se manifestaram contra a mudança de local do Comitê.

“Ao propor a mudança do Comitê de Imprensa para o subsolo do prédio, o presidente – ainda que não tenha tido a intenção – desmerece o trabalho da imprensa, dificultando o acesso dos Jornalistas ao conjunto dos deputados e a si próprio”, escreveu a Fenaj, em nota.

“Ao ocupar o local reservado há décadas pelos jornalistas, o presidente da Câmara terá acesso direto ao plenário, sem precisar se expor às abordagens dos jornalistas”, diz a nota da Abraji.

Além das entidades, vários deputados também protestaram contra a decisão de Arthur Lira de mudar o local do Comitê de Imprensa, instalado desde a década de 60 no local. Em todos os países democráticos há espaços disponíveis para o trabalho da imprensa fazer a cobertura do Legislativo. 

Mal entendido. Em entrevista à rádio BandNews FM, Lira disse que ocorreu um “mal entendido” por parte de funcionários da Câmara, e que sua intenção nunca foi impedir o trabalho dos jornalistas. Lira lembrou também que a proposta atual de mudança é anterior — foi formulada durante a gestão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à frente da Casa.

“Queria deixar claro que nunca tive a intenção de cercear o trabalho de imprensa, diminuir o acesso, deixar de conversar. Quando assumimos, já existia esse quadro proposto de remanejamento. Só não tinham tomado providência de resolver o problema da presidência da Câmara, que funciona com muita dificuldade. Você não pode reunir três, quatro pessoas na sala que não tem condições, não consegue arcar”, disse ele.

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