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Linha tênue

Justiça seja feita aos encarregados da tarefa, não é fácil separar as atividades governamentais das ações de uma campanha à reeleição.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2014 | 02h02

Uma vez que a lei não exige que os candidatos se afastem dos cargos para concorrer a um novo mandato no Poder Executivo, a mistura de agendas é uma ocorrência inevitável.

Foi assim com a presidente Dilma Rousseff nesta segunda-feira, quando até suas equipes se confundiram na hora de esclarecer se ela visitava um posto de saúde em Guarulhos como presidente da República ou como candidata.

Era evidentemente uma atividade de campanha, como todas as demais que fará - descontando as nitidamente de representação oficial - daqui até as eleições. Estava lá a equipe de filmagem para produzir imagens ao programa eleitoral e é claro que o ato foi concebido para aparecer no noticiário sobre as eleições. Os outros candidatos fizeram o mesmo.

Ah, mas ela viajou de Brasília a São Paulo no avião presidencial, chegou ao posto de saúde em carro oficial, acompanhada de batedores. Bem, Dilma Rousseff é presidente da República. Há cuidados e prerrogativas inerentes ao cargo.

Evidentemente que ela não pode circular nas mesmas condições dos adversários e deve ser preservada de modo especial, pois é chefe da Nação. O fato de ser candidata não lhe retira essa condição.

De onde, separar o inseparável torna-se quase impossível. De maneira simplista poderíamos dizer que bastaria dividir a agenda entre os horários de expediente para a presidente e, fora dele, para a candidata.

Complicado. Isso equivaleria a, em nome da extrema moralidade, confinar Dilma Rousseff durante o dia ao gabinete no Palácio do Planalto e reservar a noite - ou quem sabe a madrugada? - para o circuito eleitoral.

Já tivemos duas reeleições presidenciais, em 1998 e em 2006, e nenhuma delas foi assim. Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva cumpriram agendas mistas. Embora em princípio pareça injusto, é a regra do jogo: a reeleição reserva ao candidato/governante o direito de aparecer duas vezes.

Fora da alçada legal, porém, está o uso da máquina pública em benefício da campanha. Daí a necessidade de haver duas estruturas diferentes, sendo que o presidente pode manter uma pequena equipe pessoal de governo para qualquer situação composta de assessoria, médico e segurança.

A linha de separação é tênue, mas não é invisível. Além da óbvia proibição de se inaugurar obrar, repassar verbas, demitir e contratar, do Planalto, Esplanada dos Ministérios e adjacências não deve sair um suspiro de caráter eleitoral.

E isso, com ajuda da ética pessoal e um toque de classe, é possível se perceber a olho nu.

Leveza ideológica. Nos tempos de oposição o PT sempre foi um ferrenho adversário do chamado Sistema S, o conjunto de entidades corporativas voltadas para aprendizagem profissional, assistência técnicas e similares, como Sesc, Senai, Sesi, Senac e várias outras. Pregava sua extinção.

Depois que virou governo, o partido nunca mais deu uma palavra contra. Uma boa parte da explicação pode ser encontrada em reportagem da revista Época desta semana.

Mostra como funciona um cabide de funcionários fantasmas no Sesi de São Bernardo do Campo (SP). Nele se encontram pendurados um assessor de Lula na época do Planalto, uma das noras do ex-presidente e a mulher do ex-deputado João Paulo Cunha.

Jair Meneguelli, ex-deputado federal, ex-presidente da CUT, preside o Sesi. Ganha até R$ 60 mil mensais, tem dois carros com motorista à disposição - um em São Paulo, outro em São Bernardo.

É provável que não seja o único "S" sistema afora a fornecer motivos mais que suficientes para a defesa contundente dos companheiros pela continuidade no poder.

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