Ricardo Moraes|Reuters
Ricardo Moraes|Reuters

PF prende subsecretário de Turismo do Rio e diretor de Engenharia da RioTrilhos

Operação Tolypeutes mira em fraude no metrô Rio; obra da Linha 4 saltou de R$ 880 mi para R$ 9,6 bi, aponta Lava Jato

Constança Rezende, O Estado de S. Paulo

14 Março 2017 | 14h03

RIO - A Polícia Federal prendeu preventivamente na Operação Tolypeutes nessa terça-feira, 14, o subsecretário de Turismo do Rio Luiz Carlos Velloso e o diretor de Engenharia da estatal RioTrilhos, Heitor Lopes de Sousa Júnior. As acusações são de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), os dois teriam recebido propina na construção da Linha 4 do Metrô do Rio, entre a zona sul e a Barra da Tijuca. Eles teriam viabilizado aditivos que multiplicaram por dez o valor originalmente orçado para a obra, feita em sua maior parte no governo Sérgio Cabral Filho (PMDB).

A construção foi feita pelo consórcio Rio Barra S.A, formado pela Carioca Engenharia, por meio da Zigordo Participações S.A, associado à Queiroz Galvão e à Odebrecht. O esquema foi delatado por Luciana Salles Parente, funcionária da Carioca Engenharia, que fez acordo de leniência. Ela disse ao Ministério Público Federal (MPF) que pagou propina aos dois acusados e aos órgãos em que trabalhavam. A funcionária revelou haver combinação de pagamento com base no porcentual dos pagamentos destinados à Carioca, de 0,25% ou 0,125%, sobre os valores.

Luciana contou que parte da propina era paga a Velloso, que na época era subsecretário estadual de Transportes. Já Heitor Lopes, de acordo com o MPF, “teria recebido vultosos valores de propina em diversas ocasiões descritas a partir dos depoimentos de ex-funcionários da Carioca Engenharia”.                      

“As declarações de Luciana Salles Parente trouxeram à baila importantes informações acerca do local, forma e frequência dos pagamentos de propinas ao requerido, além de fornecer o número de seu telefone pessoal, que permitiu aprofundamento das investigações”, escreveu o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, na decisão em que determinou as prisões.

Heitor Lopes também teria recebido propinas por meio de suas empresas, acusa o MPF. Ele é sócio da Arqline Arquitetura e Consultoria e é acusado de ser sócio oculto da Arqmetro Arquitetura, localizadas no mesmo endereço. As duas foram contratadas para prestar serviços nas obras de construção da RioTrilhos, onde Heitor é diretor.

Segundo o MPF, de janeiro de 2010 a março de 2013, Heitor Lopes recebeu vantagem indevida da empresa CBPO Engenharia, do Grupo Odebrecht, ao menos quatro vezes, por meio da Arquile. Em pelo menos outras vinte e sete oportunidades Lopes recebeu dinheiro  da empresa MC Link Engenharia, em um total de R$ 5,4 milhões, segundo acusam os procuradores que investigam o caso.

De abril de 2012 a outubro de 2016, Heitor teria recebido mais de R$ 10 milhões em transferências bancárias da Arqmetro. De acordo com as notas fiscais emitidas, a empresa faturou mais de R$ 30 milhões no período. Supostamente, prestava serviços a duas outras empresas envolvidas na obra da Linha 4 do Metrô, a CBPO Engenharia e a Promon Engenharia.

De acordo com a denúncia, em 2013, Heitor participou ativamente das tratativas para celebração de termo aditivo pactuado entre a Riotrilhos e a CBPO Engenharia. O valor foi R$ 268 milhões, em operação relativa às obras de expansão da estação General Osório do Metrô.

A Justiça também aprovou o bloqueio dos bens de Heitor Lopes. A Polícia Federal encontrou na casa do diretor da RioTrilhos, na zona sul do Rio, cerca de 50 relógios de marcas como Cartier e Rolex, canetas Mont Blanc e joias. De acordo com os investigadores, o acusado e sua mulher, Luciana Cavalcanti Maia, alvo de condução coercitiva, tentavam obter cidadania portuguesa. O objetivo seria deixar o Brasil definitivamente.

Outras seis pessoas foram conduzidas coercitivamente para depor. Foram cumpridos treze mandados de busca e apreensão. A operação foi batizada como Tolypeutes (nome científico do tatu-bola) porque o equipamento utilizado nas escavações das obras do metrô é conhecido como “Tatuzão”.

A obra de construção da Linha 4 do Metrô, orçada em R$ 880.079 milhões, em 1998, terminou custando R$ 9.643.697.011,65 aos cofres públicos. Foi concluída em 2016, pouco antes da Olimpíada. Corrigido pelo INPC do período, o valor original equivalia a pouco mais de R$ 2,9 bilhões em julho do ano passado. Mesmo assim, a estação Gávea não ficou pronta e não tem prazo para ser entregue.

Outro lado. As defesas de Heitor e Velloso não foram encontradas. A Secretaria de Turismo, onde Velloso é subsecretário, afirmou que “o Sr. Luiz Carlos Velloso, vem exercendo as funções de Subsecretário Executivo na Setur-RJ desde janeiro de 2015, com lealdade e competência.”

A RioTrilhos afirmou que “ desconhece o teor das acusações e se coloca à disposição para eventuais esclarecimentos”. A Carioca Engenharia afirmou que não iria se manifestar sobre a operação.

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