Wilton Júnior|Estadão
Wilton Júnior|Estadão

Ligação para dona Nelma, mas pode falar com Cabral

Ministério Público Federal descobre que telefone em nome de mulher era utilizado pelo ex-governador, preso na semana passada

Gilberto Amendola, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2016 | 05h00

RIO - Dona Nelma de Sá Saraca não atende mais o telefone. Pelo menos desde esta terça-feira, 22, quando o número dela foi divulgado pelo jornal O Globo – depois de ter sido pinçado em uma nota de rodapé, da página 171, de um extenso documento do Ministério Público Federal. Talvez, quem sabe, Nelma tenha se mudado para outro endereço e, por enquanto, esteja apartada do seu aparelho. Justo ela que gostava tanto de falar, justo ela que nos últimos 10 anos teria recebido tantas ligações importantes – precisamente 507. Na maioria das vezes, de gente ligada ao governo do Estado do Rio de Janeiro e de empreiteiras, como Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia. Alô?

Embora registrada em nome de Nelma de Sá Saraca, a linha telefônica agora  “fora da área de serviço” tinha um outro usuário, alguém que, até onde se sabe, nada tem a ver com a família Saraca. Depois de cruzar os dados do Sistema de Investigação de Registros Telefônicos e Telemáticos (Sittel), o MPF concluiu que o telefone de dona Nelma era utilizado pelo ex-governador Sérgio Cabral Filho (PMDB-RJ). Supostamente, com o propósito exclusivo de tratar assuntos referentes ao recebimento de propinas e afins.

As primeiras informações sobre dona Nelma e outros telefones suspeitos apareceram no depoimento de Alberto Quintaes, ex-diretor da construtora Andrade Gutierrez e responsável pelo pagamento de propina da empresa. Ao que tudo indica, não era apenas Cabral que gostava de ficar pendurado ao aparelho. Em depoimento, Quintaes confirmou que entregava dinheiro vivo a Carlos Miranda, empresário do ramo agropecuário e apontado como operador de Cabral. Miranda, por sinal, usaria um número registrado, segundo o MPF, em nome de “Boomerang Comércio de Veículos”, empresa localizada na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Já Wilson Carlos, braço direito e ex-secretário de governo de Cabral, atendia em um número registrado em nome de “Luis Claudio Maia”.

Criptografia. Segundo a Procuradoria, os envolvidos utilizavam aplicativos de criptografia para evitar a interceptação de mensagens. A reportagem também tentou ligar para os números da Boomerang Comércio de Veículos e de Luis Claudio Maia. Nem sinal. Estavam todos mudos, os telefones.

Os advogados do ex-governador foram procurados, por telefone, para comentar o caso de dona Nelma. Não atenderam e nem sequer retornaram as mensagens enviadas pelo WhatsApp. O MPF foi questionado sobre a existência de uma Nelma de Sá Saraca – já que o nome não aparece no serviço de auxílio à lista telefônica da cidade do Rio de Janeiro. Era de se supor, pelo menos, que a linha estivesse vinculada a um CPF e que, portanto, existisse um laranja ou uma dona Nelma de Sá Saraca para se explicar. Até a conclusão desta edição, o MPF não soube responder se Nelma era real ou apenas fruto da fértil imaginação do ex-governador. Segundo a assessoria, “os dados ainda estariam em análise”.

Para o advogado e perito especializado em tecnologia da informação e privacidade José Antônio Milagre, a linha pode ter sido usada mesmo à revelia da sua proprietária. “Seria responsabilidade da operadora checar os dados, coisas como o CPF e endereço. Mas, hoje, você pode adquirir um aparelho apenas informado, por exemplo, um CPF qualquer, sem precisar mostrar documentos ou comprovar residência. Esse tipo de desleixo é bem comum e costuma causar problemas”, diz. 

Memória afetiva. Ainda que tenha sido uma personagem inventada, Nelma pode ter sido inspirada em outra Nelma. O Pasquim (icônico semanário que atuou na resistência ao regime militar), fundado pelo jornalista Sérgio Cabral (pai do ex-governador), tinha uma secretária chamada Nelma Quadros. A Nelma do Pasquim foi imortalizada em diversas crônicas publicadas no semanário – e sempre era retratada como alguém eficiente e de confiança.

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