Líderes negam consulta a traficantes sobre visita de Lula

Os presidentes das associações de moradores das Favelas do Alemão, Manguinhos e Rocinha, no Rio, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita amanhã, confirmaram hoje que tiveram contatos com a segurança da Presidência da República, mas negaram que tenham intermediado qualquer trégua com traficantes. "Até porque este não é nosso papel. Estive com pessoas da segurança e do Cerimonial. Eles pediram três lugares para acolher o presidente e eles escolheram a Curva do S, onde será montado o palanque", revelou o presidente da Associação dos Moradores da Rocinha, Luiz Cláudio Oliveira. Em nenhuma das favelas, o palanque será posto em áreas de risco ou próximo a bocas-de-fumo. Um das favelas mais inacessíveis do Complexo do Alemão (zona norte) para a polícia do Estado, a da Grota, também recebeu visitas dos seguranças de Lula. "Eles identificaram-se como policiais federais e oficiais do Exército. Em nenhum momento, perguntaram nada sobre tráfico. A opção de montar o palco fora da comunidade foi porque não há espaço dentro com capacidade para o número de pessoas que deve descer (o morro) para ver o presidente. De qualquer forma, na rua, ele estará cercado por nossos morros", disse o presidente da Associação de Moradores da Favela da Grota, Wagner Nicácio. Nicácio afirmou esperar que mais de 10 mil moradores recebem Lula no palanque montado na Avenida Itararé, em Ramos.Presidentes de três entidades de moradores das 14 comunidades que formam o Complexo de Manguinhos, um dos mais violentos da capital fluminense, afirmaram que, durante a preparação da visita presidencial, não se falou sobre comércio de drogas. Os presidentes da Associações dos Moradores do Conjunto Mandela I, Ednildo Cândido da Silva, do Conjunto Mandela de Pedra, Valério dos Santos, e do Parque Carlos Chagas, Paulo Raimundo Barbosa Oliveira, mais conhecido como Varginha, negaram que, nos contatos com os responsáveis pela segurança do presidente, foram feitos pedidos ou recomendações sobre o assunto.Os dois homens que lá estiveram nestes últimos dias circularam pelas comunidades e tiraram algumas fotos. À exemplo da Rocinha, aos líderes comunitários, foram pedidas sugestões de locais para a montagem do palanque. Eles ofereceram ao Cerimonial da Presidência dois lugares: o antigo Quartel de Suprimentos do Exército, na Avenida D. Hélder Câmara, e a Avenida Leopoldo Bulhões. A escolha desta última, por ser mais próxima das comunidades e facilitar o acesso da população, foi feita pelos representantes do governo. DiálogoCândido da Silva disse manter diálogo com os traficantes que atuam na comunidade. Mas, ainda assim, afirmou que não haverá dificuldades: "100% da comunidade querem a visita do presidente e, nos 100%, eles (os traficantes) estão incluídos. Não teremos problema e nem discutimos esta questão", concluiu.Nas favelas, Lula nada deve ouvir sobre violência ou denúncias de abusos da polícia, apenas discretos pedidos de paz. Na Rocinha, onde a menina Ágata Marques dos Santos, de 11 anos, morreu no dia 15, baleada numa operação policial, a associação desistiu de entregar um documento requerendo que a polícia fosse cautelosa nas incursões na favela e punição aos maus policiais. "Já fizemos nossas reivindicações ao governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) e esperamos por providências", afirmou o líder comunitário da Rocinha. No Complexo do Alemão, onde, semanalmente, morrem suspeitos em tiroteios e moradores vítimas de bala perdida, não há qualquer manifestação programada, apenas balões e vestes brancas, segundo o líder comunitário da Grota.

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