Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Lideranças da Câmara e senadores cobram demissão de ministro da Transparência

Para os parlamentares, áudios em que Fabiano Silveira critica a Lava Lato prejudicam a credibilidade do governo e o projeto de reconstrução do País

Igor Gadelha, Isabel Bonfim e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2016 | 16h52

BRASÍLIA - Lideranças de partidos da antiga oposição na Câmara dos Deputados cobraram, nesta segunda-feira, 30, a demissão do ministro da Transparência, Fabiano Silveira. O ministro aparece em áudio divulgado nesse domingo, 29, pela TV Globo, em que ele dá orientações ao presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), sobre como agir em relação às investigações da Operação Lava Jato. Os senadores Ricardo Ferraço (PSDB-ES), Álvaro Dias  (PV-PR) e Simone Tebet (PMDB-MS) também defendem a saída de Silveira.

Vice-líder do PSDB na Câmara, o deputado Nilson Leitão (MT) defendeu que o presidente em exercício, Michel Temer, tome uma atitude "rápida" em relação a Silveira, assim como fez com o senador Romero Jucá (PMDB-RR). O peemedebista foi demitido do cargo de ministro do Planejamento no mesmo dia em que veio a público áudio em que defendia um "pacto" para estancar as investigações da Lava Jato.

"Na minha opinião pessoal, acho que deveria ser trocado assim como qualquer outro que faça o mesmo", afirmou Leitão. Segundo o tucano, com a possibilidade de outros áudios gravados pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado (PMDB) virem à tona, a antiga oposição vai se reunir nos próximos dias para tirar um posicionamento oficial. "Não podemos ter dois pesos e duas medidas", disse.

Vice-líder do PPS, o deputado Arnaldo Jordy (PA) também cobrou a demissão de Fabiano Silveira. "O flagrante da conversa revela algo que é diametralmente oposto à postura que deve ter uma figura como o ministro da Transparência. Portanto, tornou-se insustentável a permanência do ministro no cargo", afirmou. Para Jordy, a Pasta deve ser comandada por alguém que não tenha "o mínimo de suspeição".

Para o líder do DEM na Câmara, deputado Pauderney Avelino (AM), o ministro da Transparência deve deixar o cargo assim como Jucá. "Até para não criar um ambiente de dificuldade (no Congresso Nacional)", afirmou o parlamentar amazonense. De acordo com Avelino, "não existe ninguém maior do que o projeto de reconstrução do País". Se ele tiver que sair, que saia", declarou.

Líderes de partidos do chamado "Centrão" evitaram se pronunciar sobre o assunto. Investigado pela Lava Jato, o líder do PP na Câmara, deputado Aguinaldo Ribeiro (PB), disse que os líderes vão aguardar o posicionamento do Palácio do Planalto até o fim desta segunda-feira, para decidir como vão se posicionar. Por enquanto, a informação é de que Temer deve manter Silveira no cargo.

Senado.  O senador tucano Ricardo Ferraço (PSDB-ES), da base governista, também pediu a saída do ministro. "Fabiano Silveira deveria ter colocado o cargo de ministro à disposição e Temer deveria tê-lo demitido", disse Ferraço. Segundo o tucano, a atitude de Silveira, que foi revelada no diálogo, é incompatível com o cargo de conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que exercia na época e, "evidentemente, com o cargo de ministro".

Ele cobrou uma atitude mais enérgica do presidente em exercício e criticou sua decisão de manter o ministro. "O presidente Temer está errando em não ser absolutamente cartesiano nessas decisões. O governo dele tem que ser marcado pela diferença e não pelas mesmices."

Ferraço defendeu que o governo Temer deveria se diferenciar do governo anterior, da presidente afastada Dilma Rousseff. "Todo o sentimento de afastamento da presidente Dilma foi na direção que houvesse mudança nessas práticas", disse.

Para Álvaro Dias (PV-PR), o presidente em exercício Michel Temer "não tem outra alternativa" a não ser afastar Silveira, pois a presença do ministro prejudica a credibilidade do governo.

"(A presença de Silveira) contamina o governo, faz desacreditar o compromisso assumido pelo presidente e, portanto, eu creio que Temer, por mais amigo que possa ser do seu ministro, deve sacrificá-lo nesse momento em nome da preservação da credibilidade do seu governo e dos seus compromissos", comentou. Dias acredita que, mesmo sendo conselheiro do CNJ na época da reunião, Silveira "de forma alguma poderia agir assim". Na interpretação do senador, Silveira "ensinou o caminho para driblar a operação Lava Jato".

Questionado sobre a participação de Renan nos áudios vazados, Dias evitou comentar. "Esse é um assunto delicado, pois a instituição tem que ser preservada sempre", disse. "Nesse caso eu prefiro esperar o presidente Renan Calheiros e conhecer a iniciativa que pretende adotar. A situação se complica a cada passo e uma iniciativa à favor da instituição é o que nós podemos esperar. Prefiro que a iniciativa seja do Renan e por isso vou aguardar", continuou. Dias negou que haja algum tipo de 'acordão' no Congresso para proteger o presidente da Casa.

Comissão do impeachment. Sobre a defesa da oposição de que os trabalhos da comissão do impeachment da presidente Dilma Rousseff devem ser suspensos por causa das gravações feitas por Machado, Dias afirmou que essa será "mais uma tentativa frustrada de impedir que o itinerário do impeachment seja percorrido na legalidade". "Não há nenhum obstáculo aparente para que esse processo tenha prosseguimento. Os fatos aludidos não dizem respeito ao processo do impeachment, ao contrário, esses fatos fortalecem a necessidade do impeachment, porque o País estava à deriva."

Após se reunir hoje com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, no Palácio do Planalto, Temer decidiu manter o ministro no cargo "por enquanto". Essa é a segunda semana seguida em que o governo começa tendo que resolver problemas relacionados ao alto escalão. O vazamento ocorre apenas uma semana após o então ministro do Planejamento, Romero Jucá, ser flagrado em áudios com Machado falando em "estancar a sangria" na Lava Jato. Jucá ficou apenas 12 dias no cargo e pediu licença do Planejamento.

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