Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Liderança do Alto Xingu, cacique Aritana morre de covid-19 aos 71 anos

Ele estava internado havia duas semanas em um hospital de Goiânia, depois de sentir tosse cansaço e falta de ar

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 17h11

O cacique Aritana Yawalapiti, de 71 anos, um dos principais líderes indígenas do Alto Xingu, morreu nesta quarta-feira, 5, vítima de covid-19, depois de duas semanas internado em um hospital de Goiânia.

A morte de Aritana foi confirmada pela família, em uma nota em que agradece às condolências, e pelo médico Celso Correia Batista, que atende os indígenas no Xingu e foi responsável por levar Aritana em uma longa jornada de carro até Goiânia, depois de o líder indígena apresentar sintomas da covid-19 na aldeia, com tosse, cansaço e falta de ar.

O líder indígena primeiramente foi levado a Canarana, no Mato Grosso, onde realizou tomografia em um hospital que mostrou comprometimento de 50% do pulmão, confirmando, na avaliação do médico, o diagnostico de covid-19 mesmo sem a realização de exame até aquele momento.

Inicialmente tentou-se uma transferência aérea para um hospital com UTI em Goiânia, mas, como nenhum médico queria se responsabilizar pelo transporte de um paciente em estado grave, segundo Batista, os esforços pela transferência aérea não deram resultado ao longo de dois dias.

Batista levou então Aritana até Goiânia em uma segunda viagem de carro de nove horas, com o apoio de cilindros de oxigênio para manter o cacique vivo. Aritana ficou duas semanas internado na UTI, mas não resistiu às complicações causadas pela doença.

“Aritana Yawalapiti tinha 71 anos e foi uma das maiores e mais antigas lideranças do Alto Xingu. Ele era um dos últimos falantes do idioma tradicional de seu povo, o yawalapiti, mesmo nome da etnia. Além de guardar a memória de sua língua natural, Aritana também falava português e outros quatro idiomas tradicionais indígenas”, disse a família do cacique em nota.

“Era um grande defensor da luta pela preservação e perpetuação da cultura de seu povo para as novas gerações, e constantemente denunciou os efeitos do desmatamento no entorno de seu território, como a extinção de peixes dos rios e a contaminação das águas.”

Uma das lideranças mais tradicionais da região Aritana trabalhou com os irmãos Villas-Bôas para a criação do Parque Nacional do Xingu.

O impacto da Covid-19 sobre os povos indígenas é motivo de grande preocupação, conforme destacado recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que apontou o risco particularmente alto para essas populações.

Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 633 índios já morreram de Covid-19 no Brasil, com 22.325 casos confirmados até o momento.

O Ministério da Saúde registra um número menor, de 294 óbitos entre indígenas e 16.509 casos confirmados. Índios que deixaram as aldeias e se mudaram para cidades não são contabilizados separadamente pelo governo.

No mês passado, a Apib e seis partidos políticos ingressaram com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo medidas legais imediatas de proteção, alegando risco real de genocídio da população indígena devido à pandemia. Nesta quarta-feira, o STF formou maioria para obrigar o governo federal a adotar ações contra a expansão do coronavírus. / REUTERS

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